quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O Silêncio dos Amantes


Lya Luft
Ed Record - 159 páginas

O livro reúne 20 contos sobre a distância que existe entre pessoas próximas, devido à falta de comunicação e ao silêncio (consciente ou não).
Por que supomos tantas coisas e nos surpreendemos quando o resultado não era o esperado? Por que fantasiamos tanto? Por que o filho sumiu? Por que o marido se matou? Até que ponto tenho culpa nas decisões alheias?

Para tentar buscar uma solução, a autora, quase sempre, esbarra na morte ou na fantasia (de anões, seres imaginários, bruxas). É interessante mas não traz nada de novo. Podia ser melhor; achei simplista demais, com exceção de 2 ou 3 contos mais interessantes.

De um modo geral: esperava mais.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Ensaio sobre a Cegueira

José Saramago
Cia das Letras - 310 páginas


Há pouco tempo comentei uma obra de Saramago e o estranhamento inicial que a leitura de suas obras provoca, especialmente por causa da quase ausência de pontuação e parágrafos.
Voltei ao autor por 2 motivos: Primeiro, por causa da pertinência do tema; segundo, por causa do filme, baseado nesta obra, lançado há 5 meses.

Tudo começa com um motorista que, parado em um semáforo, fica cego de repente. Ele, então, é guiado para casa por um homem que, em seguida, furta seu carro e fica cego também. A partir daí, o oftalmologista e os pacientes do consultório visitado por ele, também são atingidos por essa “cegueira branca”. Como conseqüência, o governo decide colocá-los em quarentena em um manicômio desativado. Terão, então, de se virar sozinhos num lugar estranho que, aos poucos, vai recebendo mais e mais “hóspedes”.


O curioso é que, apesar de existir personagens fixos, nenhum tem o nome descrito. O autor se utiliza de adjetivos para se referir a cada um: o médico; a mulher do médico; o primeiro cego; a mulher deste; a rapariga de óculos escuros; o rapaz estrábico e, por fim, o velho da venda preta. Todos cegos, menos a mulher do médico. Mas, por que será ela foi poupada? Até quando? Numa situação dessas, não seria melhor estar cega também?

No desenrolar da trama outras questões se impõem: “até que ponto vai a degradação humana?”; “Como conviver em meio à miséria e não perder a essência humana?”; “ Como lutar pela vida, quando não se consegue viver dignamente o dia de hoje?”

“Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais...” (página 119)
Por fim, podemos fazer uma leitura um pouco mais profunda: será que não existe uma cegueira atual em torno de fatos como a pobreza, as guerras, as maracutaias políticas, etc? Por que será que vemos mas não enxergamos?
“Se podes olhar, vê.
Se poder ver, repara” (epígrafe da obra)


Boa leitura!

Linha do Tempo

Michael Crichton
Ed Rocco - 564 páginas



Me surpreendi com a leitura dessa obra do saudoso M. Crichton. Diferentemente de Armadilha Aérea (mesmo autor), o texto é mais dinâmico e bem humorado.

A trama é baseada na premissa da possibilidade de sermos transportados para um universo paralelo, em outras épocas (ele procura refutar o termo “viagem no tempo”). Sendo assim, um magnata excêntrico cria uma empresa de fachada e promove experiências no passado até que um professor fica perdido em plena Idade Média, numa época de confrontos entre França e Inglaterra. Três alunos – os melhores – são escolhidos para ir resgatá-lo mas possuem apenas 37 horas para isso e terão que enfrentar todo tipo de situação que só conheciam nos livros...

Sei que fizeram um filme baseado na obra, mas não sei se foram competentes ao tratar da trama com tal suspense e emoção.

Em tempo: lembre-se que se trata de uma ficção e que não adianta ficar viajando nas explicações físico-quânticas a respeito!

Boa leitura!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O Livreiro de Cabul

Asne Seierstad
Ed Record - 316 páginas


Depois de conviver por 3 meses com uma família afegã no ano de 2002, a jornalista norueguesa Asne Seierstad decidiu escrever sobre a cultura e os costumes do Afeganistão pós-talibã.

Ela relata o dia-a-dia da família de um livreiro (Sultan Khan, nome fictício de Shah M Rais) e a forma como cada integrante deve desempenhar seu papel na sociedade: às mulheres cabe esperar pelo marido escolhido pela família (e, muitas vezes, se tornar a 2ª ou 3ª esposa deste), trabalhar em casa e não se expor na rua sem a burca ou xales e mantas. Aos homens primogênitos, por sua vez, são destinadas todas as regalias, além do poder de decisão na casa.

Temas como perseguição religiosa; luta pelos direitos ao estudo das mulheres; relacionamento familiar; casamentos arranjados; e regime talibã são abordados sob a ótica ocidental de uma forma clara, com pitadas de críticas ácidas.

Existem relatos chocantes como o da jovem esposa que traiu o marido e foi morta pelos irmãos e do carpinteiro ladrão, que foi cumprir pena por surrupiar alguns cartões postais da livraria do sr Khan.

O livro é muito bom e envolvente; não dá vontade de parar de ler. Além disso, nos faz parar para pensar na vida e como somos felizes simplesmente por termos a liberdade de ir e vir...

Boa leitura!

O Santuário




Raymond Khoury
Ed Agir - 471 páginas

Uma arqueóloga de 60 anos (Evelyn Bishop) é sequestrada no Líbano e sua filha, Mia, se vê envolvida numa corrida para salvá-la das mãos de um doutor psicopata ( o "hakim"). Este, por sua vez, acredita que Evelyn encontrou um livro antigo, o qual continha um segredo maravilhoso demais para a humanidade: a fórmula da imortalidade.


A procura por esse livro é o alvo de mais gente, inclusive de funcionários do governo americano, e o autor nos presenteia com uma trama bem amarrada, cheia de surpresas e reviravoltas do começo ao fim. É de perder o fôlego.

Boa leitura!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A menina que roubava livros


Markus Zusak
Ed Intrínseca – 480 páginas

Molching, Alemanha, 1939-1943

A história começa em janeiro de 1939, quando Liesel Meminger tem apenas 9 anos e, a caminho de Munique num trem, vê o irmão cair doente e morrer. A mãe e ela param numa estação para enterrá-lo e seguem viagem pois a menina seria adotada por um casal alemão em Molching.

Liesel vai morar com o casal Rosa e Hans Hubberman, moradores da Rua Himmel (que significa Céu), nº 33: a “mãe” lava e passa para fora, é rabugenta e sempre usa termos depreciativos em suas conversas, como Saumensch e Saukerl (pode deixar que o livro explica o que ambos significam!). O “pai” toca acordeão , é um pintor desempregado , vive de bicos e cuida da menina como filha mesmo, com carinho.

Um detalhe, que poderia ser insignificante, muda o rumo da vida da garota: ao ver um livro caído na neve, próximo ao sepultamento do irmão, ela o pega e leva embora, mesmo sabendo que este pertencia ao jovem coveiro. A partir daí, outros livros seriam roubados em situações bem diferentes, além daqueles que ela ganharia do "pai" e de Max Vanderburg, o judeu do porão, entre outras situações especiais.

A vida de Liesel não se resume apenas aos livros, mas inclui: as partidas de futebol com os meninos da rua; a amizade-quase-namoro com Rudy Steiner; os vizinhos da Rua Himmel ; os passeios de bicicleta; os roubos de frutas; as entregas de roupas nas casas dos clientes da mãe; as visitas na casa do prefeito ; o judeu lutador escondido no porão ; as reuniões da juventude hitlerista . Tudo isso faz parte da vida da menina, que cresce vendo os horrores de uma guerra estúpida e sem sentido, criada por causa das palavras do Führer (Hitler).

Palavras...palavras,...palavras... a menina , por fim, percebe o poder que elas têm. Como o mundo tinha mudado porque um homem as usara para isso . E no final, ela conclui : “ Odiei as palavras e as amei, e espero tê-las usado direito.”


Boa leitura!

p.s. existe uma curiosidade sobre a narradora que não é a Liesel mas "alguém" que teve muito trabalho na Guerra...

Assassinatos na Academia Brasileira de Letras


Jô Soares
Cia das Letras - 252 páginas

Tudo começa com a morte do senador Belizário Bezerra no dia de sua posse como " imortal" na ABL. A partir daí, vários outros "imortais" são assassinados com veneno e cabe ao comissário Machado Machado (em dobradinha mesmo) investigar e solucionar tais ocorrências.


Com muito humor, o autor nos apresenta o Rio de Janeiro de 1924, com suas características da época, pontos turísticos, personalidades, etc e nos conduz a uma trama misteriosa e divertidíssima.

Não faltam os tipos caricatos - como a babá portuguesa ou o alfaiate anão -, nem os segredos que cada personagem carrega, fazendo com que cada um seja suspeito!

Boa leitura!

O Fantasma da Ópera

Gaston Leroux (1868-1927),
Ed Ediouro - 254 páginas.

Há uns 3 anos fui assistir ao musical do Fantasma da Ópera no Teatro Abril e, em seguida, li a obra que originou ao famoso espetáculo de Andrew Lloyd Weber. Eis minhas considerações:

Primeiro: a peça é muito boa, os atores são excelentes e tudo é muito preciso, sincronizado e dinâmico.
Estava super curiosa para saber se afinal, o lustre caía ou não, na famosa cena do teatro e ele... caiu mesmo!

Segundo: o musical reúne os elementos básicos da trama, mas não entra nos detalhes da obra, elimina e condensa características de alguns personagens, e por fim não deixa claro o final do Fantasma. Mas, por outro lado, as músicas são lindas (especialmente a minha favorita: “All I Ask of You”) e o tom, perfeito em cada cena. Curiosidade: a peça estreou em Londres em 1986 e ficou 16 anos em cartaz. Em 1987 chegou na Broadway, onde está até hoje.

Para quem não conhece, a trama gira em torno de um fantasma que assombra o Teatro da Ópera de Paris e se apaixona pela cantora Christine Daaé. Temperamental, ele faz uma série de exigências aos diretores do teatro, como um pagamento mensal e a reserva de um camarote só para ele. Exige também que Christine interprete um musical no lugar da protagonista, do contrário, desastres iriam acontecer!
Christine, por sua vez, se deixa encantar pelo Anjo da Música, que a ensina a trabalhar sua voz e a se destacar nas apresentações. Aos poucos, porém, ela vai conhecendo o lado macabro desse “anjo”, principalmente quando se apaixona pelo visconde de Chagny, Raoul, e percebe que suas vidas correm sério risco de morte.




É interessante mas um pouco sombrio...arrisque!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O Guardião de Memórias


Kim Edwards
Ed Sextante - 361 páginas


Escolhas. Fazemos escolhas a todo momento: que roupa vestir? Que caminho tomar? O que comer no almoço de hoje? A maioria é inofensiva (eu acho!) mas existem aquelas que têm uma repercussão muito maior e afeta a vida de outras pessoas e é nesse sentido que o tema desse livro se desenvolve.
Um médico ortopedista (Dr David Henry), ao fazer o parto dos filhos gêmeos de sua esposa (Norah), decide entregar para adoção a menina (Phoebe) que nasceu com Síndrome de Down. Num primeiro momento, até parece a trama daquela “novela das oito”, mas a semelhança para por aí.
A enfermeira, Carolina Gill, encarregada de se livrar da menina em um abrigo especial, decide ficar com ela ao se chocar com o ambiente da instituição.
O pai vai viver com essa culpa pelo resto da vida e tentará registrar os momentos felizes e fugazes numa máquina fotográfica (a "guardiã de memórias"). As fotos, aliás, acabam por virar uma obsessão e ele constrói um muro ao seu redor, impedindo que a esposa e o filho (Paul) desenvolvam um relacionamento familiar saudável.
A autora intercala a narração do crescimento das duas crianças em suas respectivas famílias e as consequências que aquela escolha de David trouxe para as vidas de cada um.

Vale a pena a leitura!

Marley e Eu


John Grogan
Prestígio Editorial - 272 páginas


O autor, um jornalista americano, decidiu contar as peripécias de seu cãozinho de estimação, um labrador, na vida familiar pelos seus 13 anos de existência. O resultado poderia ser banal mas surpreendeu e, não é de admirar, que o livro tenha encabeçado a lista dos livros de não ficção durante meses, além de ter virado filme!
Só quem já teve um grande cão atrapalhado, como eu, sabe os apuros pelas quais a família Grogan passou. Marley comia tudo o que via pela frente (incluindo brinquedos e jóias), destruia móveis e portas; babava e pulava nas visitas; e revirava as fraldas sujas da crianças mas, ao mesmo tempo, era dócil, amável, brincalhão, fiel e solidário. Acompanhou a família no nascimento dos 3 filhos; na mudança de cidade; nas tragédias ... Nestas, mostrou seu outro lado – solícito e pronto a agir, apesar do perigo, como um “cão de verdade”...
Você vai rir, chorar e se emocionar prá valer com as inúmeras histórias de Marley (principalmente quando ele se tornou o astro de um filme e quando foi “despedido” do curso de adestramento por desmoralizar a treinadora).



Enfim, trata-se de leitura obrigatória para toda a família!

Quando Nietzche Chorou

Irvin D. Yalom
Ediouro - 407 páginas


Livros que ficam semanas no topo dos “mais vendidos” no Brasil me atraem: afinal, por que o brasileiro decidiu eleger aquele livro para sua leitura de cabeceira?! E foi assim que escolhi a obra de Yalom (psicoterapeuta e professor de psiquiatria de Stanford).

A história é simples: o autor criou encontros e diálogos fictícios entre 3 grandes nomes das ciências humanas – Josef Breuer (um dos pais da psicanálise), Friedrich Nietzche (filósofo alemão) e Sigmund Freud (considerado o pai da psicanálise e que, infelizmente, aparece em menor escala na trama).
Breuer, médico vienense do final do século XIX, destaca-se por curar Anna O através da “terapia pela conversa” e, por isso, é procurado por uma jovem (Lou Salomé) para curar seu amigo, Nietzche, sem que ele o saiba, de sua depressão suicida. Os diálogos a partir de então são densos, angustiantes, sarcásticos e...dolorosos pois mexem com os sentimentos mais profundos do ser humano. Falam de traumas, dores, desejos escondidos, vontades não reveladas, máscara social, amores, medo da morte, relacionamentos, sonhos... Enquanto trata o “paciente”, Breuer começa a desnudar o seu “eu” e, numa relação ambígua onde os papéis vão se invertendo, procura descobrir a “cura” por sua obsessão sexual pela jovem Anna O.


Não raro o leitor se pega como o 3º participante dessas sessões psicanalíticas e termina o capítulo com reflexões sobre a própria vida.
O interessante é que quando estudei Nietzche na faculdade sempre o vi como alguém extremamente infeliz e, agora, percebo que minhas impressões estavam corretas...


Só mais um detalhe: como a leitura é muita densa, o melhor é intercalar com outro mais leve...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A Distância entre Nós


Thrity Unrigar
Ed Nova Fronteira - 331 páginas

A trama se passa em Bombaim (Índia) e descreve a rotina de Bhima, empregada doméstica, e de sua patroa Sara Dubash.
Apesar de estarem tão próximas ( e por tanto tempo: mais de 20 anos), a distância social e cultural as impede de serem iguais. Bhima lava as louças da patroa, mas não pode usá-las; limpa os sofás, mas não pode sentar neles. Ela tem a sua própria louça e come em pé.
Sara, viúva de um homem violento, se dedica à filha grávida e ao genro bem sucedido.
Bhima mora com a neta na favela, é analfabeta e teve uma vida difícil. Perdeu o marido, a filha e o genro. Maya, sua neta, tem os estudos da faculdade pagos por Sara até que o destino lhes prega uma peça.
O título do livro vai além da distância entre patroa-empregada, mas inclui os relacionamentos diversos: marido-esposa; mãe-filha; avó-neta. A proximidade diária com o outro não garante uma intimidade real. Cada um tem algo a esconder,a preservar, a separar, mesmo que seja de alguém tão próximo e querido.


A história é triste, emocionante, envolvente, real.



Leia e reflita...

A Garota das Laranjas

Jostein Gaarder, Cia das Letras, 132 págs

Como gostei muito de O Mundo de Sofia (mesmo autor), assim que soube desta obra que havia saído do forno recentemente, não demorei em devorá-la.

Trata-se de uma história comovente, sem ser melosa: Georg, um garoto de 15 anos, vê parar em suas mãos uma carta que estava perdida e havia sido escrita por seu pai há 11 anos. Este a escreveu às vésperas de falecer de uma doença incurável e "conversa" com o filho sobre diversas questões: familiares,filosóficas, existenciais, além de tratar dos enigmas do Universo.
Existe um toque de mistério permeando a narrativa e a garota das laranjas vai ser o fio condutor de toda a trama.
Por fim, o pai lhe faz uma pergunta que o faz parar para pensar em sua vida e em que rumo tomará de agora e diante.



Boa leitura!

A Cidade do Sol

Khaled Hosseini
Ed Nova Fronteira - 367 páginas

Interessei-me por esse livro por ser do mesmo autor do maravilhoso O Caçador de Pipas e vi que, mais uma vez, não desperdicei meu tempo com a leitura. A trama conta a história de vida de 2 mulheres: Mariam e Laila.
Mariam passou seus primeiros 15 anos de vida nos arredores de Herat, Afeganistão, com a mãe, morando num casebre miserável, à espera das visitas semanais do pai.


Laila, por sua vez, cresceu em Cabul com os pais e, até certo momento, com os irmãos mais velhos. Era feliz e tinha 2 amigas inseparáveis (Giti e Hasina), além do melhor amigo, Tariq, vizinho dois anos mais velho, que havia perdido uma perna em uma das inúmeras minas terrestres, camufladas na região.
Mariam é dada em casamento a um viúvo, muito mais velho, e aprende desde cedo o que é ser humilhada em silêncio.
Laila descobre que está apaixonada por Tariq, assim que ele se muda com a família para outra cidade.
Um dia, o destino dessas mulheres se cruzam e o autor aproveita para denunciar todo tipo de abuso que as mulheres afegãs enfrentam diariamente caladas e submissas (seja ao marido, pai, irmão ou ao governo).


Mais que um romance de ficção, esse livro aborda como a crueldade humana se mascara sob a forma de leis e costumes, legitimando a tortura e a morte em todo um país.



Boa leitura!

As intermitências da morte


José Saramago  
Cia das Letras - 207 páginas

Ler Saramago provoca um certo estranhamento no início por três motivos: primeiro, por causa do “português de Portugal”; segundo, em virtude da ausência de pontos, vírgulas, travessão, letras maiúsculas, etc; e terceiro por causa dos parágrafos gigantescos.


Mas, uma vez iniciada a leitura desta obra, você descobre um mundo fantástico em que a morte decide fazer “greve” em um determinado país de 10 milhões de habitantes.


A vida vira um caos: onde alojar tantos doentes terminais que nunca morrem? Como sustentar financeiramente os eternos aposentados? E como explicar aos fiéis a nova ordem das coisas? Complicado...
O interessante é que, a partir da análise da sociedade, o autor passa a para a vida de um determinado sujeito, um violoncelista que, num certo momento deveria ter morrido e...não morreu! Ele burlou a morte que, intrigada, passa a segui-lo de perto e a conhecer o seu dia-a-dia.


Opiniões a parte, é muito enriquecedor conhecer a obra desse autor, que foi Prêmio Nobel em 1998.


Boa leitura!

O Amor nos Tempos do Cólera

Gabriel García Márquez
Ed Record – 429 páginas

Como já havia lido “Cem Anos de Solidão” do autor, tinha uma idéia do que iria ler: um romance com pitadas de humor e fantasia. E assim foi! Mas ler García Márquez é sempre um prazer, especialmente porque ele cria personagens que ganham vida própria com os detalhes das descrições físicas e psicológicas.
Aqui temos a história de Florentino Ariza, apaixonado pela mesma mulher, Fermina Daza, por mais de meio século. Ele a conhece quando ela ainda era uma estudante colegial e após um “namoro” exaustivo por correspondência durante 2 anos, decidem se casar.
Ariza é um homem solitário, que transforma em versos todo seu amor e passa noites em claro escrevendo cartas de páginas incontáveis; é um ser que sofre e come flores; que não se cansa de tentar interpretar os sinais da sua “deusa coroada”; que faz serenatas com seu violino pensando na direção do vento, para que o som chegue suave aos ouvidos da amada.
Tudo isso seria maravilhoso se não surgisse um 3º personagem, o Dr Juvenal Urbino, jovem médico, que acaba por desposar a bela Fermina. A partir daí, o autor passa a narrar a vida de cada um e a obsessão de Ariza por Daza ao longo dos anos.


Por fim, é um livro que aborda da primeira à última página, um tema universal: o amor.

Vale a pena a leitura!

Ponto de Impacto


Dan Brown (Ed Sextante, 440 págs)

Nem pense na quantidade de páginas deste livro, pois você vai devorá-las num instante. Ah vai...
Misturando ciência e política, o autor elabora uma trama envolvente e cheia de reviravoltas. De um lado, temos o corrupto Senador Sexton, candidato à presidência dos EUA, que ataca veementemente os gastos públicos com a Nasa (que seria, segundo ele, uma agência ineficaz e consumidora de vastos recursos). De outro, temos o presidente Zach Herney, que busca a reeleição de forma, aparentemente, transparente e se mostra grande defensor da agência especial.
De repente, surge um fato novo: a descoberta de um meteorito na geleira Milne (Ártico) contendo fósseis, o que justificaria os bilhões de dólares investidos até então. Aí é que a trama começa a se desenvolver pois alguns cientistas, convidados a provar a autenticidade da descoberta, detectam a possibilidade de fraude e, na tentativa de acharem a verdade, acabam por colocar suas próprias vidas em risco...
O carisma dos cientistas (Rachel Sexton, analista de inteligência do governo e Michael Toland, oceanógrafo e apresentador de TV), aliás, é um detalhe à parte.
Apesar de todo suspense, das tramas paralelas e das descobertas desvendadas ao longo do livro, dá pra descobrir quem é o verdadeiro vilão logo de início. Mas esta é só uma dica; não vou estragar o final.

Boa leitura!

O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder 
Cia das Letras - 555 páginas


O autor se utiliza de um personagem (Alberto Knox) para ensinar a história da filosofia para uma jovem norueguesa (Sofia Amudsen), através de cartas, cartões postais, fitas e “viagens” no tempo (acho que esse tema está na moda...).

Ele faz um panorama sobre a vida, a cultura, a arte, a história de cada filósofo citado, como Sócrates, Platão, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Descartes, Locke, Kant, Hegel, Marx, entre muitos outros (acredite)! Destaca também como era o mundo na época da Antiguidade, da Idade Média, do Renascimento, etc, contextualizando e comparando cada pensamento desenvolvido.


Ponto forte: conhecimento histórico e contextualização dos pensadores e filósofos.
Ponto fraco: oferece sua opinião e interpretação dos fatos como certa e verdadeira.


De qualquer forma, para quem não teve filosofia na escola, é uma boa oportunidade. Afinal, a arte de se admirar como o mundo é o princípio da filosofia... As conclusões, cada um tire por si!

Quase Tudo


Danuza Leão
Companhia das Letras - 223 páginas

Imagine ser amiga de Lily Marinho e, num momento de aperto, ganhar um apartamento de presente. Ou, que tal ter uma tela de seu retrato feita por Di Cavalcanti especialmente para você. Ou imagine a emoção de entregar o troféu de campeão de um GP para ninguém mais que Airton Senna! Mas você ainda pode escolher entre ser amiga de Vinícius de Moraes, acompanhar o surgimento de Brasília ao lado do presidente JK ou ter um emprego que garanta viagens pelo mundo afora inteiramente grátis.
Parece demais para uma pessoa só? Isso não é nada... para Danuza Leão que conta com humor e coragem trechos de sua vida e de seus três casamentos.
Porém, nem tudo são flores e as perdas são narradas com sensibilidade, especialmente a da irmã, a cantora Nara Leão, que morreu no auge da carreira, vítima de câncer.
Hoje, aos 75 anos, a colunista da Folha de S. Paulo continua buscando a felicidade e, como o escritor Elie Weisel reforça que “ depois de tudo o que já vivi, nada que me aconteça poderá me fazer muito feliz nem muito infeliz”. Será?

Boa Leitura!

De Volta para Casa


Mary Sheldon (Ed Record, 318 págs)

Se você vai ler Mary Sheldon, filha do famoso (e saudoso!) Sidney Sheldon (autor de Se Houver Amanhã, A Herdeira, entre outros), em busca de um estilo sarcástico, tramas mirabolantes e luta por vingança e pelo poder, pode parar por aí. Diferentemente do pai, Mary deixa esses aspectos de lado e, de forma envolvente (agora sim o DNA fala mais alto), desenvolve uma trama baseada em “perdas”, com grande sensibilidade.
Ela toca em temas difíceis (como abandono de crianças, por exemplo) neste livro, com emoção, fazendo o leitor parar para pensar na realidade que o cerca.
A personagem principal, Alexis Avery, apesar de ser uma decoradora de interiores famosa e prestigiada, sente um vazio que, ao longo do enredo, é explicado através de uma retrospectiva de sua infância. Sua mãe, Maggie Royal, uma famosa atriz, também tem uma história de vida que vai acabar influenciando a vida da pobre Alexis. Os anos passam, os problemas mudam, os traumas aparecem mas o desfecho nos presenteia com indícios de esperança para resolver essas questões.

É uma boa pedida para que procura um bom romance envolvente.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa


C.S. Lewis
Editoea Martins Fontes


Faz um bom tempo que li essa obra magnífica de C.S Lewis (autor irlandês, contemporâneo e amigo do famoso J.R.R Tolkien) pela primeira vez e , desde então, tenho indicado a amigos, além de emprestar um dos meus 2 exemplares a quem quiser...
Esse é o primeiro volume de uma série de 7 livros sobre Nárnia, reino onde ocorrem grandes embates entre o bem o mal. Tudo começa por acaso: quatro crianças (Lúcia, Suzana, Edmundo e Pedro) entram em um guarda roupa na casa de um velho professor e descobrem esse reino fantástico lá no fundo. A partir daí, faunos, centauros, anões e inúmeros animais falantes surgem na trama.
O Bem é encabeçado pelo grande Aslam (um leão) e o Mal pela Feiticeira Branca. Esta tem o poder de transformar os seres vivos em pedras e está obstinada a destruir todos os “filhos de Adão”(meninos) e as “filhas de Eva” (meninas), que encontrar. A trama é permeada por lições de moral, alegorias e é uma aventura para toda a família curtir.



Confira e...não se arrependa!

Vivendo com Propósitos

Ed René Kivitz
Editora Mundo Cristão – 268 páginas


Nada como começar o ano com uma boa leitura e, por isso, a dica desse mês vai para esse tratado da busca pela qualidade de vida (em todos os sentidos!).Nessa época, paramos para avaliar o ano que passou e traçamos planos para o ano que se inicia.


De forma fluente, agradável e compreensível, o autor nos convida a refletir sobre o sentido de nossa existência, em um mundo competitivo, egocêntrico e caótico. Os capítulos discorrem sobre o significado de transcender, crescer, conviver e construir. 


Não se trata de um livro de auto-ajuda com frases de impacto positivas (coisa que o autor, inclusive refuta com excelente embasamento teórico), mas de modelos e lições de vida para um crescimento pessoal, “visando um estilo de vida que se identifica mais com uma jornada do que com um destino.”

Imperdível!

O Caçador de Pipas



Khaled Hosseini
Ed Nova Fronteira - 365 páginas

Por você, faria isso mil vezes!

Assim era Hassan: um menino hazara de lábio leporino, amigo fiel de Amir (seu patrão, um ano mais velho). Cresceram juntos e tinham as mesmas paixões: histórias afegãs, filmes de caubóis e pipas. Por causa destas últimas foram muito felizes e também encontraram motivos para chorar... pela vida afora. O inverno de 1975 não foi igual aos outros e devido a uma decisão de Amir, nada mais seria igual. Algo foi rompido; quebrado; maculado e o tempo não pôde ajudar muita coisa.


Descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar. Olhando para trás, agora, percebo que passei os últimos vinte e seis anos da minha vida espiando aquele beco deserto.” (Amir, pág 9)


Um dia, porém, aparece uma chance para Amir se redimir. Seria tarde demais? Ele seria capaz de provar a sua amizade? A que preço?

Livro de ficção mais vendido no Brasil nos últimos meses, essa obra é emocionante, envolvente e dramática. Trata de amizade, preconceito racial, relação entre pais e filhos, entre outros temas.


A trama começa no Afeganistão da década de 70, ainda monarquia, e segue até os terríveis dias dominados pelo Talibã. A infância acabou cedo demais para essas duas crianças; o mundo acabou de uma hora para outra e os afegãos de um modo geral se viram perseguidos em sua própria pátria, sendo obrigados a fugir para não morrer.


Leitura obrigatória, mas antes um conselho: deixe uma caixa de lenços por perto. É impossível não se emocionar, nem deixar umas lágrimas rolarem.

Boa leitura!

Sobre poesia...

Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes. E que bastaria estar quieta, calada e atenta para ouvi-los. Desse encontro inicial, ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador.”

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Melhores Contos de Lygia Fagundes Telles

Coletânea elaborada por Eduardo Portella 
Global Edital - 175 páginas.

Ganhei de um amigo essa obra há poucos meses e a devorei em algumas horas!


Trata-se de uma coletânea de contos (quem me conhece já sabe que, ao lado das crônicas e poesias, é um dos meus gêneros literários favoritos!) desta autora maravilhosa (que, para quem desconhece, é formada em Direito e Educação Física pela USP, além de ser Membro da Academia Brasileira de Letras).


Existem contos que tratam de ciúmes (como o do marido pela jovem esposa em “As Pérolas) e da vida difícil – em todos os sentidos – daqueles que lutam pela família e para ser feliz e a vida só lhe dá bordoadas (como em “A Confissão de Leontina”, narrada em primeira pessoa e o mais longo conto da obra).


A morte aparece aqui e acolá, como no destino dos velhinhos em “A Presença” e do pai em “Antes do Baile Verde”, ou nos presságios e sonhos em “A Mão no ombro”. Pode ser imaginária, como em “A Caçada”, que mistura o real e o imaginário, a vida e o sonho; ou ser sugerida, como em “A Estrutura da Bolha de Sabão” e em “Herbarium”, que tem a delicadeza de fazer brotar da terra e das plantas a poesia que o amor empresta à vida (mesmo que ela seja breve!).
Além disso, a autora nos surpreende ao contar em um parágrafo de 6 (isso mesmo, seis!) páginas a história de amor (e porque não, de obstinação) de uma jovem cabeleireira que apesar de desprezada, luta até envelhecer por aquele que acredita ser o grande amor de sua vida.


Ah, só mais uma curiosidade: Li um desses contos (“As formigas”), na época do colégio, o qual me marcou profundamente, pois fiquei extremamente assustada! Ao contar a história de duas jovens que vão morar em um sótão, que possui um caixote com ossos de um anão, a autora mostra o mistério que há nas inocentes formigas que passeiam pelo local à noite. Até aí, nada de mais se EU não passasse as minhas férias no interior de SP e não dormisse sobre um porão barulhento, numa casa antiga com mil e um tipos de insetos passeando pelo quarto à noite! Traumas da infância...


Enfim, a beleza da vida, a sucessão de problemas que o ser humano enfrenta e a perspectiva de que um dia tudo acaba são tratados de forma sutil, por vezes melancólica e poética por Lygia F Telles nessa coletânea.


Boa leitura!