sábado, 31 de dezembro de 2016

Liquidação

Imre Kertész
Companhia das Letras - 106 páginas

"Pois somos assim, homens um pouco copiados, alimentamo-nos de vidas mais fortes que a nossa, como se dessas vidas nos coubesse também uma fatia." (página 38)

Amargo é editor de B., um escritor que se suicida e deixa uma peça chamada "Liquidação", passada em 1990, em Budapeste.

B. sempre foi enigmático: nasceu em Auschwitz, num verdadeiro milagre e nunca superou o trauma da sua origem:"Ele sentia que nascera na ilegalidade, sobrevivera sem razão e sua existência não se justificava por nada..." (pág.98)

Amargo ao ler a peça, descobre muito mais que os motivos da decisão de B. para se matar, assim como descobre o que aconteceu com o romance "perdido", que gostaria de ler e publicar postumamente.

A peça, aliás, tem Amargo como protagonista e sua trama se mistura com a narração do editor e da ex-mulher de B. (Judit).

Não é uma leitura fácil, pois nos faz refletir sobre as mazelas da guerra e a destruição emocional que gera em todos que passaram por ela. Sobreviver fisicamente é uma coisa, emocionalmente é outra.

Boa leitura!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A garota no trem

Paula Hawkins
Ed Record - 375 páginas

"Às vezes, me pego tentando me lembrar da última vez que tive contato físico de verdade com alguém, um abraço, um aperto de mão que seja, e sinto uma dor no coração." (página 16)

Ganhei, ops, roubei esse livro (calma, que explico) no amigo secreto "ladrão" da firma. Claro que fiquei com dó do Fred, mas vivo o lema: "Amigos, amigos. Leituras à parte!"
Levei pra praia para ler, imaginando que ele seria minha companhia nas férias toda. Me enganei. Li em 3 dias.

A trama gira em torno de Rachel que, diariamente, pega o trem que vai de Ashbury para Londres. No caminho de ida e volta, ela gosta de apreciar a paisagem, ver as casas e imaginar o que se passa com seus moradores. Existe uma casa, em particular, que ela admira: lá vive um casal, Jess e Jason, que sempre trocam carícias no jardim e parecem ser felizes. Ela não os conhece, mas os chama assim. 

Um dia, porém, Rachel vê Jess com outro homem e, depois, fica sabendo de algo alarmante a respeito dela. Eis que se instala o dilema: ela deve procurar a polícia? O marido? Quem vai confiar nela, já que por causa da bebida não se lembra de muita coisa?

Rachel luta contra o álcool, sofre com seu divórcio (e com a aparente felicidade do ex-marido -Tom - com sua nova família) e não tem amigos. Ela teria credibilidade para ajudar a solucionar um mistério que nem a polícia está sabendo como lidar?

Vale a pena a leitura!


Obs: Sei que já saiu o filme e, pelo trailer, achei bem confuso, mas parece que Emily Blunt encarnou bem a personagem instável, "passada", preocupada e quase neurótica em alguns momentos.





domingo, 27 de novembro de 2016

Capelania hospitalar: a misericórdia em ação

Antonino Pinho Ribeiro (Pr Nino)
Ed Capelania Evangélica Hospital SP - 66 páginas



"O serviço de capelania hospitalar consiste num ministério de apoio, fortalecimento, aconselhamento e consolação, desenvolvido junto aos enfermos e seus familiares, funcionários e médicos do hospital. Consiste em levar conforto em horas de angústia, incerteza, aflição e desespero e compartilhar o amor de Deus por meio de atitudes concretas: presença, gestos, palavras, orações, textos bíblicos, música, silêncio." (Citando Baustista - página 31)

Há cerca de 5 anos conheci o Pr Nino e o trabalho que ele faz nos hospitais, com o serviço de capelania. O livro dele Há Graça no Sofrimento? me marcou, pois vi um lado que pouco se fala nas igrejas: o voluntariado com aqueles que sofrem em hospitais.

Nesse novo livrinho, o pastor conta um pouco do conceito e da origem da capelania, do perfil do capelão e dos benefícios da fé para a saúde do enfermo.

Vale a pena a leitura!

sábado, 12 de novembro de 2016

Vá, coloque um vigia

Harper Lee (1926 - 2016)
Ed José Olympio - 252 páginas

"...é sempre fácil olhar para o passado e ver como éramos ontem ou dez anos atrás. Difícil é ver o que somos hoje." (página 243 - dr Finch)

Há cerca de 1 mês escrevi sobre o melhor livro que li nos últimos anos: O Sol é para Todos e, quando soube que a história de Scout continuava em outro livro da mesma autora, corri pra comprar!

O entusiasmo durou pouco. Não porque agora Jean Louise "Scout" seja adulta (ela tem 26 anos), more em Nova Iorque e não tenha casado ainda, mas porque tudo aquilo que eu admirei em Atticus Finch, seu pai, caiu por terra.

Agora, o dr Atticus é um senhor de 72 anos, com artrite, mas ainda trabalha e é ativo na comunidade. Scout, por sua vez, vem visitá-lo sempre que possível em suas férias. Com exceção dos tios, do pai e de Calpúrnia, pouco ou nada sabemos dos outros grandes personagens de "O Sol".

Os embates sobre racismo e intolerância racial continuam fortes em Maycomb, Alabama, e novamente um negro é acusado de estuprar uma mulher branca. O tom, porém, muda e Scout não entende nada. Como pode o homem que a criou pensar de uma forma diferente da que ela aprendeu como correta? E como ela pode se casar com Henry, depois de tudo que viu e ouviu naqueles dias?

Se não fossem pelas memórias de episódios da sua infância com Jem, Dill, Henry e Calpúrnia, o livro seria maçante, batendo sempre na mesma tecla.
Ainda bem que não o li primeiro, do contrário nem seguiria adiante com o outro, que dá de dez a zero neste em todos os sentidos.

E pensar que a autora escreveu este primeiro e não publicou. Só publicou O Sol é para todos e ainda levou o Pulitzer em 1961. Décadas depois (e aliás, pouco antes de falecer), ela decidiu publicar este, talvez por entender que nessa altura da vida não tinha nada a perder.

Ela talvez não tenha perdido, mas eu sim: meu encanto por Atticus Finch se foi...


terça-feira, 4 de outubro de 2016

O sol é para todos

Harper Lee (1926-2016)
Ed José Olympio - 364 páginas

"Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas do ponto de vista dela." (Atticus, página 43)

Pensa num livro encantador: é esse! Não só pela beleza que é conhecer a história da família Finch sob o olhar da filha caçula (Scout, de 6 anos), mas porque mostra a simplicidade da vida, apesar dos estragos que a maldade humana faz.

Scout é o apelido de Jean Louise, uma garotinha que no início do livro tem 6 anos e mora com o irmão Jem (4 anos mais velho), o Pai Atticus e a babá negra Calpúrnia numa cidadezinha do Alabama chamada Maycomb, no início de 1930. A vida na cidade gira em torno da lavoura, numa época que negros e brancos tinham funções e tratamentos distintos. As igrejas, inclusive, agiam do mesmo modo: havia as congregações do brancos e as dos negros.
Atticus é um advogado branco que foi chamado para defender a causa de Tom Robinson, um pai de família negro, acusado de estuprar uma mulher branca. Atticus é um homem equilibrado, decente e estudou com detalhes a situação, indo até as últimas consequências pra defender Tom. Nesse caminho, porém, muitas pessoas da cidade se voltam contra a família Finch, inclusive as crianças.
O pai as chama de lado, conversa e explica a situação: nem todos entendem a postura dele, mas ele estava fazendo o certo, defendendo um homem no seu direito.

"Ainda que tenhamos perdido antes mesmo de começar, não significa que não  devamos tentar." (pág. 102)

A causa podia parecer perdida, as pessoas falarem, as crianças sofrerem bullying na escola, mas era o correto a ser feito.

Scout sempre ouviu e respeitou o pai, mesmo discordando de muita coisa como por exemplo, o fato dela ter de ir pra escola, no primeiro ano. Era chato ter de ficar quieta na classe pra não "atrapalhar" as demais crianças, a pedido da professora. As artimanhas, aliás, que ela usa pra não ir mais na escola são hilárias e te cativam pela ingenuidade. Não são raras as vezes que Atticus sorri diante dos dilemas da sua filha pequena, a abraça e a consola.

Quando não está na escola, Scout está brincando com Jem e Dill (sobrinho da vizinha) no quintal ou estão tentando descobrir um pouco mais do vizinho estranho que mora a poucas casas da residência deles e nunca sai de lá: por que o maluco do Boo Radley faz isso? Como aguenta viver anos sem sair pela porta, que seja?

Enfim, a vida de criança de Scout e Jem nos três anos que se seguem se confronta com a vida dura de adultos amargurados por causa da cor de pele uns dos outros. Scout não entende o racismo já que sua babá, uma segunda mãe, é negra e tem por eles um amor incondicional.

Ah, se o mundo pudesse aprender a viver com o olhar de Jean Louise: um olhar puro, doce, encantador...

"Olha, Jem, eu acho que só existe um tipo de gente: gente." (pág. 283)

O livro é lindo demais e já se tornou um dos melhores que li na vida, sem sombra de dúvida! E, por isso, a leitura é mais que recomendada: é obrigatória!



domingo, 18 de setembro de 2016

O voo da guará vermelha

Maria Valéria Rezende
Alfaguara - 180 páginas

"...o amor é como menino que não sabe contas nem de perda nem de ganho, vive desacautelado, não tem lei, não tem juízo, não se explica nem se entende, é charada e susto, mistério." (página 60)

Irene é uma prostituta soropositiva, que luta pra ganhar uns trocados para alimentar o filho pequeno. Toda segunda-feira é dia de levar alguma coisa pra ele e pra velha (sua mãe?), sendo pouco ou o mínimo razoável.

Um dia, porém, ela conhece Rosálio, um pedreiro analfabeto que está trabalhando numa obra da região. Com um passado difícil, sem nem ter tido um nome e uma certidão de nascimento, escolheu como queria ser chamado ao conhecer a professora Rosália. Não conheceu seu pai e sua mãe se suicidou tão logo ele nasceu.

"Um corpo de homem aguenta mais do que a gente imagina, por vontade de viver, mas a alma é outra coisa, vai morrendo mais depressa quando perde a esperança, quando a maldade é demais..." (pág. 88)

Apesar de tantas tragédias, o pedreiro sempre teve um sonho: aprender a ler. As palavras dos livros sempre o encantaram; suas histórias davam um outro sentido à sua existência, sempre que alguém lia algo pra ele. Não é à toa, que em suas andanças, nunca abandonou a caixa de madeira com os livros que herdou do Bugre, um amigo. Seu desejo?
"...viver muito, de poder correr caminhos caçando como aprender." (pág. 49)

E então, os destinos de Rosálio e Irene se cruzam: ele tem muita coisa pra contar; ela tem muita coisa que deseja ouvir. Ele quer aprender a ler; ela se encanta com a simplicidade dele e começa a ensiná-lo na escrita. 
Um cuida do outro; cada um se doa à sua maneira, da melhor forma.

"...deu saudade triste e boa, pensei que quem tem saudade tem na vida uma riqueza, coisas boas de lembrar, isso era tudo o que eu tinha." (pág. 82)

Com uma sensibilidade absurda, Maria Valéria discorre sobre a vida desses dois personagens, de uma forma que é impossível não se emocionar.

Leitura obrigatória pra quem tem paixão pela vida, pelos livros e pela poesia que emana da vida das pessoas.

domingo, 11 de setembro de 2016

Terra Sonâmbula

Mia Couto
Companhia das Letras - 208 páginas

"Lá, em minha aldeia, no sempre igual dos dias, o tempo nem existia..." (página 43)

Tudo começou com "O outro pé da sereia", o primeiro livro do Mia que li. De lá pra cá, só acumulei sonhos e encantamentos com as leituras de suas obras: Antes de nascer o mundo, A varanda do frangipani, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, O último voo do flamingo, entre outras.

Aqui temos duas histórias, que se entrelaçam e se misturam: o miúdo Muidinga e o velho Tuahir fogem da guerra por uma estrada morta, sem vida. Vão caminhando a esmo até que encontram um ônibus queimado e decidem se abrigar ali dentro. O que os distrai são os cadernos encontrados em uma mala, ao lado de um cadáver, próximos dali.
Cada caderno conta um pouco da vida de Kindzu, filho do pescador Taímo, que sai da sua aldeia para se tornar um naparama (um guerreiro de justiça).

"não é a estória que o fascina mas a alma que está nela." (pág.67)

Kindzu pega seu barco e navega mar adentro, sem rumo, até chegar em Matimati.

"olhei o fundo escuro da noite, lá onde o mar toca os pés de Deus." (pág. 42)

Muidinga não se lembra da sua infância, mas é grato ao velho por ter salvo sua vida e se tornado um segundo pai para ele. As leituras dos livros de Kindzu os mantém unidos, vivos, próximos, apesar da fome, das dores e das dificuldades que enfrentam pra sobreviver.

"a dor, afinal, é uma janela por onde a morte nos espreita." (pág.68)

Em Matimati, Kindzu assume uma nova missão: achar Gaspar, filho de Farida, seu amor que mora em um navio encalhado num banco de areia.

"...nenhum rio separa, antes costura os destinos dos viventes." (pág. 87)

Não conto mais pra não estragar as surpresas.

Fantasia, lirismo, sonho, poesia e muitas alegorias marcam as obras de Mia, que tem o dom de te envolver do começo ao fim.

"Afinal, no meio da vida sempre se faz a inexistente conta: temos mais ontens ou mais amanhãs?" (pág. 135)

Boa leitura!

sábado, 3 de setembro de 2016

Os Dez Mandamentos (+um): aforismos teológicos de um homem sem fé

Luiz Felipe Pondé
Três Estrelas - 128 páginas

"Este livro foi escrito por um homem que não recebeu o dom da fé. Caminho nos campos do Senhor , como diz a Bíblia, como um cego em um jardim." (página 9)

Há 5 anos tive o privilégio de participar de um fórum cristão de profissionais na IBAB, que contou com a participação do pastor Ed René e do filósofo Luiz Felipe Pondé. Os temas debatidos foram diversos, mas o foco era o novo livro do autor "Contra um mundo melhor", que falava sobre a culpa, a miséria da alma e vulnerabilidade humana.

Nesse livro, Pondé toma como ponto de partida os Dez Mandamentos ordenados por Deus a Moisés, no livro de Êxodo, e faz a sua "teologia", acrescentando um 11º mandamento (que, diferentemente do que ele diz no começo, só pode ter sido escrito por alguém que tem fé!).

Sendo assim, ele vai falar da misericórdia de Deus, da idolatria humana, da Criação, do significado de uma vida vã, da cobiça, do amor, da esperança. Temas recorrentes para aqueles que têm...fé!

"Deus, porém, é misericordioso, justamente porque não precisa sê-lo. Só se pode confiar na misericórdia de quem tem todos os poderes e, portanto, não precisa de nada nem de ninguém, nem tem coisa alguma a ganhar com a própria misericórdia." (pág. 11)

"O milagre na Bíblia hebraica é toda a Criação - o ser, portanto. Milagre não é o Mar Vermelho se abrir para dar passagem ao povo judeu vindo do Egito. Milagre, isso sim, é a existência do átomo que faz a água ser água." (pág. 36)

"...O Segundo Mandamento, quando alerta para não invocarmos Seu santo nome em vão, está dizendo para não levarmos uma vida vã." (pág.39)

"O Bem não é o "oposto" do Mal. O Bem está acima do Mal." (pág.82)

"Um mundo sem confiança é um mundo imerso na ausência de vínculos..." (pág.104)

"Para amar é preciso ter coragem..." (pág. 120)

Como já disse há 5 anos, minha oração é para que ele tenha a coragem de buscar a esse Deus que ele já conhece de tanto estudar, para que o conheça de fato como seu Deus misericordioso, seu Pai Amado que ouve suas orações ainda hoje e que o transforme no melhor do ele jamais pensou em ser.

Vale a pena a leitura!

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Assassinatos na Rua Morgue e outras histórias

Edgar Allan Poe (1809-1849)
Coleção Folha - 112 páginas

"Se não houver um braço amigo que nos ampare, ou se não fizermos um esforço súbito para nos afastarmos do abismo, saltaremos e seremos destruídos." (página 10)

Sempre tive curiosidade em ler algo de Edgar Allan Poe, mas fui adiando. Ao ler o primeiro conto ("O demônio da perversidade"), já fui cativada. E não é que ele toca justamente nesse ponto, o de postergar uma tarefa? Para ele, aliás, essa ação "simples" é um dos sintomas do que ele chama de "perversidade". Sabemos que a ação deve ser feita, mas adiamos até o ponto desta não ter mais valia. Nos consumimos pensando na ação, ao invés de executá-la de uma vez.
Outro sintoma é ser consumido por falar algo que pode te prejudicar, mas que mesmo assim você se vê compelido a abrir a boca.Como explicar? Só pode ser essa tentação do mal! O resultado? É a agonia do narrador do conto. Um assombro.


Em "Hop-Frog e os Oito Orangotangos Acorrentados", somos levados a um reino onde o rei e seus sete ministros "se destacam pela maneira como contavam uma história engraçada ou como planejavam troças que o divertissem." (pág. 13) Eram gordos e brincalhões e se divertiam judiando de um anão deficiente (Hop-Frog), que fazia o papel de bobo da corte. Como planejam um baile de máscaras e não sabiam o que vestir, chamaram o anão para alegrá-los, fazendo com que este se embriagasse. Ao ver o sofrimento do amigo, Tripetta, que também era anã e servia na corte, tentou intervir e apanhou.O resultado foi um baile inesquecível para o rei e todo reino!

Já em "Os fatos que envolveram o caso do Mr. Valdemar", é um conto sobre
hipnose. Será que é possível hipnotizar alguém no limite da morte e enganá-la?


"O Gato Preto", vemos como a vida de um homem pode se destruir pelo álcool e pela violência. O final, surpreendente, é conhecido de muitos.

Em "Nunca aposte sua cabeça com o diabo", conhecemos Dammit que, de forma leviana, faz sempre apostas desse tipo. Um dia, porém, ele perde a aposta e aí... o bicho pega!

Por fim, "Assassinatos na Rua Morgue" fala de dois assassinatos brutais que ocorreram em um casarão de Paris e que desafiam a polícia e a opinião pública. Quem poderia ter feito algo tão brutal? Como?  E aí entra em cena o amigo do narrador, Monsieur C. Auguste Dupin que tem o dom de descobrir as coisas, apenas pela dedução e lógica das coisas. E não é que ele conseguiu descobrir? O "como" e o "porquê" são absurdos.

Leitura obrigatória para quem curte o gênero!

Carol

Patricia Highsmith (1921-1995)
L&PM Editores - 312 páginas


"estava feliz agora, a começar de hoje. Não tinha necessidade (...) de um passado." (página 50)

Therese Belivet é uma jovem cenógrafa que pegou um bico de fim de ano, numa grande loja de departamentos. Ela trabalha na seção de brinquedos e passa o dia vendendo bonecas.

O movimento da loja é intenso e insano, mas em um determinado momento o tempo parou para que Therese e Carol cruzassem seus olhares e, consequentemente, suas vidas.

Therese, apesar de ter um namorado (Richard),  se apaixona na hora pela mulher mais velha e, partir daí faz de tudo para ficar próxima da amada. Carol tem uma filha pequena e está se divorciando de Harge, num processo não tão amigável como gostaria. É rica e, de uma certa forma, parece que gosta de manipular pessoas e situações. Está sempre fumando e toma decisões sem parar pra pensar. Age por impulso.

"Está virando uma doença, não está, a incapacidade de amar?" (pág.137)

Não sei se a obra foi mal traduzida ou mal escrita mesmo, mas a narrativa é cansativa, repetitiva e, até quase no final, você não tem certeza se Carol realmente se importa com Therese ou não.  Durante a leitura, você fica esperando um "ponto alto", algo para ser desenvolvido, mas ele não aparece e a trama toda se passa com diálogos fracos, só se resolvendo nas páginas finais.

É isso!

sábado, 23 de julho de 2016

Qual é a tua Obra?

Mario Sérgio Cortella
Ed Vozes - 144 páginas

"um poder que se serve em vez de servir, não serve." (página 96)

Há 5 anos me encantei com a obra Não nascemos prontos! Provocações filosóficas do Cortella e, agora, volto ao autor pra ler um pouco sobre gestão, liderança e ética e continuo encantada...

Ao falar sobre trabalho, ele levanta as origens da palavra e a forma como encaramos o nosso trabalho no cotidiano: ele é apenas meu ganha-pão ou pode ser o motivo de algo maior, que mostra a minha obra, a minha criação?

"Etimologicamente, a palavra trabalho em latim é labor. A ideia de tripalium aparecerá dentro do latim vulgar como sendo, de fato, forma de castigo. Mas a gente tem de substituir isso pela ideia de obra, que os gregos chamavam de poiesis, que significa minha obra, aquilo que faço, que construo, em que me vejo." (pág.21)

Depois, ele fala sobre Gestão (sabemos tudo? É possível ter dúvidas?), Liderança (o que é essencial? Ela é um dom? Quais as competências da arte de liderar?) e Ética (ela existe em todos? O que as nossas escolhas mostram sobre a ética que temos?).

"Eu me vejo naquilo que faço, não naquilo que penso." (pág.20)

"A gente não aprende com os erros. A gente aprende com a correção dos
erros." (pág. 30)

"Essencial é tudo aquilo que você não pode deixar de ter: felicidade, amorosidade, lealdade, amizade, sexualidade, religiosidade. Fundamental é tudo aquilo que o ajuda a chegar ao essencial." (pág. 64)

"Você não nasce líder, você se torna líder no processo de vida com os outros." (pág. 71)

"Ética é aquela perspectiva para olharmos os nossos princípios e os nossos valores para existirmos juntos. " (pág. 105)

E aí, deu vontade de se encontrar e ver significado naquilo que faz? De saber lidar com a mudança? De ter discernimento nas decisões? De inspirar outros? De distinguir o essencial do fundamental? Então, boa leitura!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

O marido dela

Luigi Pirandello (1867-1936)
Coleção Folha - 256 páginas

"Ela sempre se recusara a olhar-se por dentro, na alma. Algumas raras vezes que tentara por um instante, quase tivera medo de enlouquecer." (página 50)

Sílvia Roncella é uma jovem escritora que, no início do século XX, muda-se com o marido para Roma.

Seus escritos começam a se destacar no meio literário e, por isso, ela é convidada para um banquete, onde é apresentada a jornalistas, editores, escritores e demais celebridades do mundo das artes.

Tímida e retraída, Sílvia pouco fala de si e das suas obras. Quem faz esse papel de divulgador e agente - primeiro informal, depois, formalmente - é seu marido, Giustino Baggiolo. Sem medir esforços, nem pudores, ele negocia os textos da esposa, acompanha as apresentações das peças e tenta transformar em dinheiro o que, para ela, são apenas textos produzidos para seu prazer.

"Cada obra, nela, sempre se movera sozinha, por motivos próprios e ela não fizera mais do que obedecer docilmente e com amor essa vontade de vida, a cada seu espontâneo movimento interior." (pág.171)

O filho do casal nasce, Sílvia se recolhe no interior de Cargiore na casa da sogra e, a partir daí, tanto ela, quanto o marido percebem como os planos para o futuro de ambos estão indo para rumos diferentes e conflitantes.

Pirandello descreve cenas e personagens de um modo sutil, por vezes cômico e de uma forma que você consegue simpatizar - ou não - logo de cara com cada um.

Boa leitura!

sábado, 25 de junho de 2016

Retrato do artista quando jovem

James Joyce (1882-1941)
Coleção Folha - 272 páginas

"Ele não tinha morrido mas tinha desbotado como um filme ao sol.  Tinha se perdido ou se afastado da existência para a qual não mais existia." (página 96)

Stephen Dedalus é criança quando a obra começa. Estuda na Clongowes, onde tem uma rígida educação católica. As aulas, as brincadeiras com os colegas, os estudos. Tudo acontece sob a ótica do regime do internato, onde até quebrar os óculos pode ser motivo para levar "bolos" de palmatória de um padre.

O menino se torna adolescente e aos 16 anos conhece o sexo sem compromisso. Ele se entrega, mas depois se arrepende e se martiriza. Sofre. E, diante do medo do inferno eterno, busca a remissão de seus erros e de sua culpa na confissão.

"Ele havia cometido um pecado mortal não apenas uma mas diversas vezes e sabia que, embora arriscasse a danação eterna apenas em função do primeiro pecado, a cada pecado ulterior multiplicava a culpa e o castigo. " (pág. 109)

Mas Stephen cresce e começa a questionar a religião, os costumes sociais e as práticas familiares, ao mesmo tempo que evolui na escrita de suas poesias e na leitura de grandes pensadores e filósofos.

O menino, por fim, cria asas.

Boa leitura!


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Vidas provisórias

Edney Silvestre
Editora Intrínseca - 240 páginas

"Eu riria, se pudesse. Mas os remédios me deixam num lugar entre o riso e o choro. Não. Me deixam em um lugar em que não há riso nem choro. É neste lugar que estou vivendo. Ainda." (página 129)

Paulo, o garoto de 12 anos do livro "Se eu fechar os olhos agora", reaparece aqui 9 anos depois, em 1970 como estudante de pedagogia. Ele é preso por engano, torturado e humilhado, mas "alguém" importante impede que seja morto e o manda para o exílio. Paulo, então, vai para o Chile, depois para Suécia e França.

"Este é o grande poder dos torturadores. A dor não passa. O domínio deles continua." (pág.56)

No pararelo, temos também a história de Barbara, que em 1991 parte para os Estados Unidos, fugindo dos problemas da vida. Lá, a realidade é dura, especialmente para quem vive de forma ilegal e possui uma identidade argentina falsa. Consegue um trabalho de faxineira.

Apesar de ser reservada e não se expor, ela conhece histórias de outros brasileiros. Um deles é Sílvio. Foi para o exterior ainda jovem, fez a vida como garoto de programa e agora padece com a Aids. Mesmo doente, ele se mostra alegre, irreverente e incentivador sempre que conversa com Barbara.

Paulo tenta reescrever sua história com Anna, sua namorada sueca. Barbara pensou que ia reescrevê-la com Luis Claudio, namorado brasileiro que a acolhe nos EUA. Nesse processo, ambos são obrigados a viverem vidas provisórias, vidas que não escolheram, mas que nem por isso devem ser desperdiçadas.

Boa leitura!

terça-feira, 7 de junho de 2016

A confissão da leoa

Mia Couto
Companhia das Letras - 254 páginas

"Como há espaço, dentro de nós, para enterrarmos as nossas pequenas mortes!" (página 38)

Há 5 anos li meu primeiro Mia (O outro pé da sereia) e fiquei encantada com o estilo desse autor moçambicano.

Conforme já falei em resenhas anteriores, é difícil resumir em palavras todos os sentimentos que os livros dele produz. Então, vamos à trama!

A aldeia de Kulumani se vê numa situação inusitada: o ataque de leões. Então, o adminstrador local (Florindo Makwala) decide chamar um caçador profissional: Arcanjo Baleiro. O caçador vai para a aldeia junto com um escritor, que irá registrar cada passo da empreitada.

Na aldeia mora a família de Genito Mpepe: a esposa Hanifa Assulua e a filha Mariamar. A família já foi maior, com outras 3 filhas, todas mortas. As gêmeas morreram afogadas e Silência, a filha mais velha, foi a última vítima do leão.

Os capítulos do livro intercalam trechos do diário do caçador e da visão de Mariamar. Passamos a conhecer os fatos da aldeia sob as duas óticas, uma completando a outra.

Ler Mia é abrir caminho para que o sonho, a fantasia e os fantasmas internos se aflorem. Nem sempre é fácil.

"...tristeza não é chorar. Tristeza é não ter para quem chorar." (pág. 56)

Boa leitura!

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Teoria Geral do Desassossego

Guilherme Antunes
Editora Penalux - 168 páginas

"A vida é um constante e inevitável lembrar-se de si." (página 96)

Graças à querida Dulce Miller (Onde vão parar os sonhos extraviados?), conheci o trabalho do Guilherme e foi amor à primeira vista!

Sabe quando você lê uma poesia e parece que quem escreveu andou ouvindo os sons do seu coração? Ou quando você lê uma crônica e se encanta com a sensibilidade de quem escreveu? Então, foi assim comigo, logo no primeiro livro. O autor usa as palavras para transbordar os seus (muitos) afetos:

"... no vão entre as palavras habitam nossas verdades. As palavras são, muitas vezes, pretextos para silêncios que nos confessam." (pág. 30)

Vida, amor, paixão, desejos, encontros, alegrias, medos, vontades, dores, perdas, descobrimentos...cada texto carrega consigo uma pitada de cada sentimento, em maior ou menor grau.

"...só tu sabes onde moram os meus milagres." (pág. 56)

"O que sou não foram os destinos que me fizeram, mas o teu amor em mim." (pág. 24)

"O amor dá sentido aos passos transformando-os em caminhos." (pág. 122)

Cada texto (poesia ou crônica) é um convite ao autoconhecimento, é um respiro em meio à rotina da vida, é um alento para a alma.

"Tardamos para aprender que é preciso despedir muitos medos e apegos para sermos felizes. Deixamos toda a responsabilidade para o tempo. Vivemos nos adiando." (pág. 107)

Boa leitura!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Depois de Você

Jojo Moyes
Intrínseca

"Às vezes eu tinha a sensação de que todos nós estávamos no mesmo mar de sofrimento, relutando em admitir para os outros até que ponto estávamos apenas acenando ou já nos afogando." (página 137)

Para quem leu Como eu era antes de você e ficou se perguntando o que aconteceu com Louisa Clark, finalmente vai poder matar a curiosidade agora.

Com o dinheiro herdado de Will Traynor, Lou compra um apartamento pequeno, com terraço, em Londres, e passa a trabalhar num pub no aeroporto. Apesar do chefe exigente e da fantasia horrorosa que precisa usar, ela não tem forças - nem ambição - para buscar novos desafios.

Porém, tudo muda, quando Lou conhece Sam Fielding, um paramédico que a socorre em uma circunstância inusitada: ela acabara de cair do prédio onde mora e é ele quem vai socorrê-la de ambulância. A amizade continua, uma vez que eles têm um conhecido em comum, graças ao "Grupo Seguindo em Frente" - grupo de autoajuda que Lou começa a frequentar, para superar seu luto que já dura 18 meses.

Além de Sam, surge outra pessoa na vida de Lou, que vai bagunçar, literalmente, sua rotina: Lilly. Quem é ela? O que deseja? Por que só apareceu agora?

Não dá para falar mais, sem entregar coisas importantes da trama. O livro é interessante, mas tem um clima "down" quase que o tempo todo, só melhorando no final.

Apesar de não ser da melhor safra de Jojo, vale a pena a leitura!

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Risíveis Amores

Milan Kundera
Companhia das Letras - 264 páginas

"Atravessamos o presente de olhas vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar o que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que vivemos e compreendemos o sentido do que se passou..." (página 11)


Kundera nos presenteia com 7 contos deliciosos, que se desenvolvem a partir de uma brincadeira ou mal-entendido e evoluem para desfechos inesperados. Logo de cara, percebi traços de A Brincadeira, que tem o mesmo mote, mas com consequências mais desastrosas.

O conto que mais gostei foi O jogo da carona: um casal de namorados brincam que não se conhecem e ele oferece uma carona para sua namorada-desconhecida. A partir daí, um vai descobrindo traços da personalidade e comportamento do outro, que jamais sonharam imaginar.

Em Ninguém vai rir, um professor universitário recebe uma carta elogiosa ao seu trabalho e pede para que escreva um parecer crítico a uma determinada revista, que recusava publicar um estudo de seu admirador, um tal de Zaturecky. A recusa em escrever essa crítica, já que achara o estudo ruim, e o fato de evitar o contato com Zaturecky transformam a pessoal e profissional do professor de tal forma, que ele vê num beco sem saída.

O último conto, Eduardo e Deus, conta o dilema de um jovem apaixonada por uma garota religiosa, que começa a frequentar a igreja para se aproximar mais dela. Porém, esse gesto, é interpretado como uma afronta ao regime comunista onde vive e Eduardo precisa se explicar na escola onde leciona o motivo de sua religiosidade.

"Se eu não pensasse que vivo para alguma coisa maior do que minha própria vida, sem dúvida seria incapaz de viver." (pág. 215)

Kundera não tem pudor em mostrar as contradições da vida e dos nossos sentimentos. Ele questiona o comportamento humano e suas motivações e, mesmo que a situação seja desastrosa ou crítica, ele ainda acha uma brecha para o humor e o riso.

Vale a pena a leitura!

domingo, 10 de abril de 2016

A Garota Dinamarquesa

David Ebershoff
Editora Rocco - 366 páginas

"Era maio de 1929, e ele se daria o prazo de um ano. (...) Se em um ano, exatamente, Lili e Einar não tiverem se entendido, ele viria à praça e se mataria." (página 148)

Einar e Greta moram em Copenhague, são casados e ambos são pintores: ele é bem conhecido e seus quadros vendem bem. Ela, por sua vez, é uma garota que veio da Califórnia e ainda não fez o seu nome conhecido no meio artístico.

Eles se conheceram na faculdade: Einar Wegener era professor de pintura na Academia Real de Belas-Artes e foi professor de Greta Waud. Prestes a completar 18 anos, Greta procurava um par para seu aniversário e, ao ver Einar na escadaria da faculdade, se aproximou e o convidou. O beijo veio em seguida e a certeza de que ele seria o homem com quem se casaria também.

Um belo dia, Greta estava finalizando um quadro de sua amiga Anna Fonsmark, soprano da Ópera Real da Dinamarca, mas encontrava dificuldades para pintar de cabeça. Dependia de um modelo e Anna tivera que faltar aquele dia. Greta, então, pediu um "favorzinho" ao seu marido, ao que ele respondeu: "Claro. O que você quiser." Ela pediu para que ele vestisse as meias e os sapatos de Anna. Ele vestiu e foi como se o mundo tivesse parado: sua vida ganhava um novo significado. Nesse dia nascia Lili, seu outro "eu".

Com sensibilidade, o autor se baseou em um fato real, da vida de Lili Elbe e Gerda, para criar sua ficção. Einar que, aos poucos vai desaparecendo, para dar lugar a Lili, nascera com biotipo feminino (com poucos pelos e de corpo franzino). Com o tempo, ele começa a sofrer sangramentos e, ao procurar ajuda médica, descobre que além disso, nascera com ovários atrofiados. O dilema surge: como conviver com características masculinas e femininas? Quem ele era de fato?

O drama de Einar/Lili nos comove na medida que paramos de julgar e nos colocamos no lugar do próximo. Excelente leitura para desmontar preconceitos e nos fazer refletir: e se fosse comigo? E se fosse com alguém que amamos?




p.s. não assisti ainda ao filme, mas pelo trailer, creio que conseguiram captar a sensibilidade da história.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Onde vão parar os sonhos extraviados?

Dulce Miller
Editora Penalux - 92 páginas

"O que mais dói no coração humano é a incompreensão (...) A pior das aflições é não entender o que acontece no coração do outro." (página 14)

Acompanho os tweets da querida Dulce Miller há algum tempo e, quando soube que ela iria escrever um livro, me programei pra comprar assim que saísse do forno. E assim aconteceu: fiz minha encomenda e recebi esse livro lindo, com dedicatória, que devorei em dois tempos!

Dulce abre seu coração em contos, poemas e crônicas, de forma simples, gostosa. Impossível não se identificar em várias situações, especialmente se você tem um coração pulsante e cheio de cicatrizes (e quem não tem?).

"...estou dançando conforme as minhas cicatrizes me ensinaram..." (pág. 18)

"...a lembrança da fantasia que criamos ainda me faz chorar." (pág. 24)

O poema sobre Gratidão é o meu favorito da obra: é uma oração de agradecimento pela vida, de fé e esperança num "eu" melhor daqui pra frente. É linda, linda, linda!

"Gratidão é palavra que não se diz olhando para o chão, a gente olha pro céu, em oração." (pág. 73)

Vale a pena a leitura!

domingo, 13 de março de 2016

A graça da coisa

Martha Medeiros
L&PM Editores - 216 páginas

"Só nos tornamos adultos quando perdemos o medo de errar. Não somos apenas a soma das nossas escolhas, mas também das nossas renúncias. Crescer é tomar decisões e depois conviver em paz com a dúvida." (página 26)

Ganhei esse livro de uma grande amiga e, aproveitando uns dias férias, o levei pra viajar comigo. Nada mais gostoso que deitar numa rede e ler coisas leves como poesias, contos e crônicas. 
Esse livro traz justamente essas últimas: 81 crônicas escritas para os jornais, no período de 2011 e 2013. 
Algumas perdem um pouco o brilho por serem datadas: falam de uma notícia da época ou de algum filme/peça que acabou de estrear (logo, o frescor da novidade não existe mais). Outras, porém, abraçam assuntos universais, que não dependem de local, dia e hora pra acontecer. São as melhores. É quando a autora fala do amor, da solidão, da dor, das artes, dos relacionamentos e até da própria fama.

"Amar é lapidação..." (pág. 47)

"Tocar na dor do outro exige delicadeza." (pág. 48)

"Acreditar-se especial nos torna patéticos (...) Lutar contra o próprio ego não é fácil, mas é o único jeito de mantermos uma certa sanidade e paz de espírito." (pág. 95)

"Ter uma vida interessante depende apenas do olhar amoroso que lançamos sobre nossa própria história." (pág. 163)

"Se aquilo que gosto de ouvir estimula as mesmas sensações em quem convive comigo, cria-se um diálogo sem palavras, à prova de mal-entendidos." (pág. 168)

Duas crônicas são de leitura obrigatória, caso você comece a ler o livro e queira desistir no meio do caminho: "A melhor versão de nós mesmos" (pág. 133) e "Empatia" (pág. 163)

Boa leitura!

quarta-feira, 2 de março de 2016

Superar é Viver

Pedro Pimenta
Editora Leya - 270 páginas

"Doutor", interrompi. "Eu vou perder os membros?"
Ele hesitou, mas sabia que era o momento de dizer a verdade.
"Sim", respondeu com relutância.
"Quais?", continuei.
"Todos os quatro." (página 50)

Pedro tinha 18 anos quando travou esse diálogo com seu médico em um leito de hospital, depois de ter sobrevivido a uma infecção severa chamada meningococemia, causada pela bactéria que origina a meningite. Porém, como esta bactéria caiu na corrente sanguínea, fez um estrago em seus membros, que gangrenaram rapidamente. A única opção para mantê-lo vivo foi a amputação dos dois braços e das duas pernas.

O que poderia ser uma sentença de morte, se transformou numa luta pela sobrevivência, num primeiro momento, e pela melhoria da qualidade de vida rumo à independência, assim que ele teve alta do hospital e se viu no mundo real.

"...na vida real não há espaço para ensaios." (pág. 166)

O caminho foi duro, doloroso, cheio de lágrimas e de muito esforço, fé e coragem, mas Pedro conseguiu superar cada obstáculo, aos pouquinhos.

Li muita coisa que me fez voltar no tempo, quando em 1988 parei de andar e tive de colocar um par de próteses no quadril. Pensei que nunca mais eu fosse andar, tamanha era a dor (no caso, antes da cirurgia) e a dificuldade de me adaptar às próteses logo que comecei a tentar dar os primeiros passos. Muitas muletas e bengalas depois, hoje ando sem ajuda, mas só quem me acompanhou sabe quantas lágrimas derramei nesse processo de recuperação, e quantas vitórias celebrei em cada conquista.

A história de vida do Pedro serve de inspiração para cada um que está a um passo de desistir, de jogar a toalha e dizer: "Chega, não sou capaz!".

Se o mundo não está preparado para você, você deve se preparar para o mundo, com sua criatividade, ousadia, fé, entusiasmo e paciência.

"A felicidade não deve estar relacionada a uma condição física. Quem constrói a felicidade é você, do jeito que você é." (pág. 11)

Não escolhemos os problemas pelas quais vamos passar, mas podemos passar por eles com um sentimento de autocomiseração ou com fé em Deus e em nossas potencialidades. A escolha dará frutos bem diferentes.

Boa leitura!

Obs: Ganhei esse livro da minha avó de 90 anos. Não é uma fofa?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Um mais Um


Jojo Moyes
Intrínseca - 320 páginas

"Porque sabia que algo acontecia com uma criança quando a mãe não a abraçava nem lhe dizia o tempo todo que ela era a melhor coisa do mundo (...). Porque, ainda que um filho leve pedrada do mundo inteiro, se ele tiver o apoio da mãe, ficará bem. Lá no fundo, saberá que é amado." (página 151)

Jess Thomas faz faxinas e trabalha em um pub à noite para sustentar sua filha Tanzie, de 10 anos, e seu enteado Nicky, de 16. A menina é um prodígio em matemática e, por esse motivo, ganhou uma bolsa parcial no melhor colégio particular da cidade. O menino, gótico e introspectivo, vive sofrendo bullying de um grupo de meninos da rua. O pai das crianças, depois de sucessivos fracassos, sai de casa e vai morar com a mãe numa cidade distante. Logo, todos os problemas da casa sobram para Jess resolver.
Um dia, surge uma oportunidade: uma Olimpíada de Matemática na Escócia (que fica a mais de 900 Km de onde moram), cujo prêmio em dinheiro vai resolver grande parte de seus problemas, caso Tanzie a vença. As chances são enormes e, diante de diversas dificuldades e dívidas que surgem a cada dia, acaba sendo a única luz no fim do túnel.

Já Ed Nicholls, um desenvolvedor de software que se vê envolvido numa séria acusação de prática ilegal de informações privilegiadas, decide se refugiar em sua casa de praia. Lá, ele tem o primeiro contato com Jess, que foi fazer a faxina do local. 

A partir daí, a trama de desenvolve com os caminhos dos dois se cruzando numa situação difícil à beira da estrada e passamos a viajar com eles pelas estradas rumo à Escócia.

Se você se emocionou com outros livros da autora (A última carta de amor, Como eu era antes de você, A garota que você deixou para trás ) como eu, não vai ser diferente agora. 

Separe a caixa de lenços e...boa leitura!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Sinais da Graça


Philip Yancey
Editora Mundo Cristão - 424 páginas

"Jesus deslocou a ênfase da santidade (exclusiva) de Deus para a misericórdia (inclusiva) de Deus." (página 33)

Esse livro é praticamente um devocional diário, uma vez que possui 366 textos avulsos, extraídos de diversas obras e publicações do autor.

Foram escolhidos textos que falam de fé, oração, humildade, bondade, preocupações, sofrimento, dor, religião, ressurreição de Cristo, felicidade, vazio existencial, arrependimento entre outros assuntos.

"Exercer a fé no presente significa confiar que Deus vai fazer o trabalho ao longo da experiência que me aguarda, apesar do tumulto que acompanha o resto de minha vida. " (pág. 198)

"A igreja (...) deveria incluir duas posições: um povo que aspira à santidade e, no entanto, descansa na graça; um povo que condena a si mesmo, mas não condena os outros; um povo que depende de Deus, e não de si mesmo." (pág.123)

Quando li Maravilhosa Graça, há cerca de 3 anos, me encantei com a forma como Yancey abordou a questão:


"Graça significa que não há nada que possamos fazer para forçar Deus a nos amar mais (...) e que não há nada que possamos fazer para forçar Deus a nos amar menos." (pág. 179)


Cristo se entregou na cruz por nós (isso é Graça!), nos amou, apesar de não merecermos (isso é Graça!), nos perdoou - e nos perdoa hoje - (isso é Graça!), é misericordioso (isso é Graça!) e quer ter um relacionamento pessoal através da oração conosco.

Vale a pena a leitura!


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Vida Querida

Alice Munro
Companhia das Letras - 316 páginas

"Cada curva parece podar um pouco do que resta da minha vida."
(página 66 em "Amundsen")

Os contos de Alice Munro, autora canadense vencedora do Nobel de Literatura em 2013, são densos e, de certa forma, perturbadores.

Em "Que chegue ao Japão", vemos Greta com sua filha pequena em um trem rumo à Toronto, para encontrar seu amante. No percurso, porém, um imprevisto acontece e abala Greta profundamente.
Já em "Amundsen", conhecemos a jovem Vivi Hyde, que vai trabalhar como professora de crianças tuberculosas, em um hospital na remota Amundsen, e se envolve com o médico responsável. Ficam noivos e, novamente, algo acontece para quebrar a harmonia da situação.
Culpa pela morte da irmã pequena ("Cascalho"), chantagem emocional ("Corrie"), fuga da realidade ("Trem"), perdas ("Com vista para o lago", "Dolly") são assuntos duros, tratados com sensibilidade e lucidez pela autora em seus 14 contos, sendo os 4 últimos com traços autobiográficos.

Ele perguntou "Como vai?" e eu respondi "Bem". E aí acrescentei, só para garantir, "Feliz". (pág.69)

"Há uma cavidade em todo lugar, especialmente em seu peito." (pág.175)

É um livro que nos leva a refletir sobre situações banais que, de tão simples, podem transformar nossas vidas num piscar de olhos, caso alguma coisa saia dos trilhos.

Boa leitura!