quarta-feira, 24 de maio de 2017

Depressões

Herta Müller
Editora Globo - 161 páginas

"Tudo parece próximo e, quando nos aproximamos não chegamos lá. Eu nunca entendi essas distâncias. Eu sempre estava atrás dos caminhos, tudo corria à minha frente. Eu só tinha a poeira na face. E em lugar nenhum havia um fim." (página 23)

"Depressões" é um dos 15 contos desse livro, o maior deles, que conta as lembranças de uma menina no campo, sua vida na aldeia com seus pais e avós. Ela não recebe carinho, pelo contrário, só broncas, tapas e bofetadas.

"Toda vez eu caía e começava a chorar, mordia o pente na minha dor e sabia, nesse instante, que não tinha pais, que estes dois não eram ninguém para mim, e me perguntava porque estava sentada nesta casa, nesta cozinha com eles..." (pág. 68)

Há toda uma descrição do campo, dos insetos, das flores e do comportamento da família e da aldeia, que fica em algum lugar de Banat, região limítrofe da Romênia com a Hungria e a Sérvia.

Todos os contos são carregados de tristeza e conformismo. Não há liberdade de ser o que se é, mas o que se esperam que você seja, num mundo que é assim mesmo. 

Como a autora cresceu sob de Ceausescu e mudou para a então Alemanha Oriental, levou consigo o sentimento de seu povo e da opressão que é a vida numa ditadura. Ela recorre a frases curtas, fragmentadas, para que o leitor imagine a beleza ou a dor do momento.

Vale a pena a leitura!


terça-feira, 16 de maio de 2017

Depois de Auschwitz

Eva Schloss
Universo dos livros - 304 páginas

"Somente quando se está encarcerado ou incapaz de tomar suas próprias atitudes, você percebe que um dia inteiro é um período extenso que pode se estender por uma eternidade." (página 83)

Eva nasceu em 1929 na Áustria e tinha uma vida feliz com seus pais (Erich e Fritzi) e irmão mais velho, Heinz, até que estourou a Segunda Guerra Mundial. 

A família fugiu para a Holanda, se separou e ficou escondida até que um dia foi pega, graças à delação de "amigos".

"Fui capturada pelos nazistas no meu aniversário de quinze anos. Era 11 de maio de 1944..." (pág. 88)

A partir daí, começou o inferno na vida dessa jovem: a família foi parar em Auschwitz-Birkenau e sofreu todo tipo de abuso físico, psicológico e moral.

"Eu era agora a prisioneira A/5272 - parte de um processo cujo objetivo era acabar com meu orgulho e com minha identidade." (pág.108).

Uso de baldes sanitários, ratos e insetos na cama, fome, trabalho árduo, frio, humilhações. Imagine tudo isso elevado a enésima potência, já que ainda havia a presença constante de guardas e os castigos.

Ler um livro desses não é fácil: você se depara com o pior do ser humano e não entende nunca como foi possível tanta crueldade. Crianças, adolescentes, famílias inteiras foram dizimadas como vermes. Claro que havia lampejos de solidariedade nesse meio, mas a natureza das maldades era tão gritante, que deixa qualquer um perplexo ao tomar conhecimento.

Eva sobreviveu e, graças a coragem dela de rever suas feridas, conhecemos um poucos mais do Holocausto e dos horrores da guerra.

Boa leitura!


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Justiça Generosa

Timothy Keller
Ed Vida Nova - 208 páginas

"A Bíblia é, do começo ao fim, um livro dedicado à justiça no mundo (...) Ela nos oferece tudo que precisamos - motivação, orientação, alegria íntima e poder - para vivermos uma vida justa." (página 15)

Esse livro é, do começo ao fim, um incentivo para que os cristãos arregacem as mangas e comecem a trabalhar, de fato, em prol dos mais vulneráveis, a saber, os pobres, os doentes, os órfãos, as viúvas e os estrangeiros.

"Se nós, os crentes em Cristo, não honramos os clamores e necessidades dos pobres, deixamos de honrar a Deus." (pág 29)

Podemos ajudar em 3 dimensões: assistência, desenvolvimento e reforma social.

"Assistência é a ajuda direta que supre as necessidades física, material e financeira logo de início." (pág 122)

" Desenvolvimento significa oferecer a indivíduos, famílias ou comunidades inteiras aquilo de que precisam para se tornarem independentes da assistência e alcançar condições de autossuficiência econômica." (pág 123)

Por fim, a reforma social é o passo seguinte, quando o conjunto das ações de desenvolvimento se espalham e beneficiam todo um grupo ou comunidade, com mudanças estruturais de comportamento e modo de vida.

O autor levanta questões interessantes sobre evangelismo, assistencialismo, dedicação, formas de ajuda e outros temas que nos fazem refletir sobre nosso papel, independentemente do tamanho da igreja que frequentamos, ou da nossa disponibilidade. Sempre há algo a ser feito.

"...o evangelho produz interesse pelo pobre e as obras de justiça dão credibilidade à pregação do evangelho. " (pág 142)

É um ciclo: por você ter sido amado por Deus, você ama. E por amar, você faz. E, fazendo, você legitima aquilo que prega.

"Evangelismo é o ministério mais básico e radical possível para o ser humano. Isso é verdade não porque o espiritual é mais importante do que o físico, mas porque o eterno é mais importante do que o temporário." (pág 142)

E aí, se animou a fazer mais próximo?

Boa leitura!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Baía da Esperança

Jojo Moyes
Ed Intrínseca - 304 páginas

"Quando Liza não estava no mar com a tripulação, passava o tempo todo na cozinha. Não gostava de conversa fiada(...) Preferia ter uma porta fechada entre ela e o inesperado." (página 29)

Liza mora com a tia (Kathleen) e a filha de 11 anos (Hannah) em Silver Bay, uma cidadezinha litorânea da Austrália, e esconde um passado perturbador, que só a tia conhece. Elas administram um hotel simples (Baía da Esperança) e Liza ainda leva os turistas para alto mar em seu barco para observar baleias e golfinhos. Levam uma vida pacata, da forma que Liza deseja.
Um dia, Mike Dormer se hospeda no hotel com o objetivo de obter uma licença local para construir um resort de luxo, o qual trará sérios problemas ambientais. Como ele passa várias semanas ali, acaba conhecendo a vida de cada um que é próximo à família de Liza, incluindo seus amigos tripulantes de outras embarcações, os quais se reúnem para confraternizar no hotel todas as noites, após o expediente.
E agora, como ele vai seguir adiante com algo que pode destruir aquelas pessoas - e aquele lugar como um todo - que ele aprendeu a amar? 


A história é contada sob o ponto de vista de cada personagem e, apesar trazer uma trama bem amarrada, demora pra engrenar. Por ter detalhes da vida na cidade e da vida das baleias, algumas vezes parece que se está lendo algum livro de biologia marinha. As descrições cansam. É só do meio para o fim que a história anda e ficamos na torcida para um final feliz.

Não é um livro sensível e delicado como os outros dela que viriam anos depois e seriam sucesso, como A última carta de amorComo eu era antes de vocêA garota que você deixou para trás. Mas, de qualquer forma, vale pena a leitura!



sábado, 29 de abril de 2017

Toda luz que não podemos ver

Anthony Doerr
Ed Intrínseca - 528 páginas

"Algumas tristezas nunca deixam de existir."
(página 501)

Ganhei esse livro do meu amigo Potter, também conhecido como Toshio que, aliás, conhece minhas preferências literárias desde o século passado (não é exagero!). E, pra variar, ele acertou em cheio: devorei o livro em poucos dias e já comecei a imaginar o belo filme que dará se for parar na telona.

A trama se passa entre 1934 e 1944, mas começa em 1944 em Saint-Malo, na região da Bretanha, durante o bombardeio norte-americano para libertar a cidade da ocupação nazista alemã. A partir daí, o leitor vai e vem no tempo, e passa a conhecer a vida de 2 jovens que moram bem distantes um do outro.

Marie-Laure tem 16 anos e ficou cega ainda criança, em decorrência de uma catarata bilateral congênita. Ela foi criada pelo pai em Paris e, com a guerra, os dois tiveram que partir rumo a Saint-Malo, para ficar na casa de um tio-avô.
O pai de Marie é Daniel LeBlanc, chaveiro-chefe do Museu Nacional de História Natural de Paris, que sempre a levou para visitar seu ambiente de trabalho. De um certo modo, ela conhecia tudo por lá. Além disso, visando sua autonomia, Daniel fez uma maquete do bairro onde moravam para que Marie-Laure pudesse se ambientar caso tivesse que sair para a rua sem ele. A maquete tinha os detalhes das casas, das ruas e até dos bueiros, pois são pontos fáceis de serem identificados por quem usa uma bengala para se locomover e não enxerga nada. Com a mudança de cidade, Daniel construiu outra maquete que, além das funções anteriores, teria outra secreta: a de ser guardiã de um diamante valioso, chamado Mar de Chamas.

Já Werner é um alemão de 18 anos que, em 1944 ficou preso num porão, depois que o hotel em que estava foi bombardeado. Apesar de jovem, é especialista em consertos de rádios e transmissores, além de identificar sinais e frequências com facilidade e rapidez, algo imprescindível durante a guerra. Werner é órfão e cresceu num orfanato com sua irmã. Não teve muitas escolhas e, como seu talento foi descoberto cedo, conseguiu escapar do trabalho nas minas de carvão, local que ceifara a vida de seu pai anos antes. Sendo assim, ao partir para aprimorar seus estudos com transmissores numa cidade distante da sua, ele deixou pra trás sua vidinha de órfão e passou a encarar os horrores da guerra de frente.

Bom, não dá pra falar mais sem entregar a graça do livro, que é a evolução de cada personagem e as idas e vindas no tempo. Não é à toa que a obra foi vencedora de um Pulitzer de ficção (2015).

Vale a pena a leitura!

Ele me fez lembrar um pouco O Pintassilgo, obra de Donna Tartt: temos um museu, um órfão e o cuidado com um bem muito valioso...

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Amor Líquido

Zygmunt Bauman (1925-2017)
Zahar - 192 páginas

"É da natureza do amor (...) ser refém do destino." (página 21)

Esse foi um dos 4 livros que ganhei dos meus colegas de trabalho, pelo meu aniversário, e posso afirmar agora que foi o que mais gostei!

Ler Bauman é viajar em cada linha. É ora concordar, ora discordar, é parar - sempre - pra pensar.
Nosso mundo atual é confuso e concebe a vida e as relações humanas como algo utilitário, descartável, consumível.

"[A parceria] é eminentemente descartável. (...) as mercadorias podem ser trocadas (...) Mas, ainda que cumpram o que delas se espera, não se imagina que permaneçam em uso por muito tempo." (pág.28)

"...quando se entra num relacionamento, as promessas de compromisso são irrelevantes a longo prazo." (pág.29)

"Esta é uma época em que um filho é, acima de tudo, um objeto de consumo emocional." (pág.60)

Vivemos uma vida de ansiedade, pois sempre estamos pensando naquilo que (ainda) não temos e que deveríamos ter para nos fazer felizes/satisfeitos.

"Há sempre a suspeita (...) de que se esteja vivendo uma mentira ou um equívoco, de que algo de importância crucial foi esquecido (...) ou de um tipo desconhecido (...) ainda não foram aproveitadas..." (pág. 75)

Nossos lares não são mais ambientes de intimidade, pois cada um está na sua: "a casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer, separadamente lado a lado. " (pág.85)

Avaliamos nossos parceiros e amigos "nas alegrias do consumo" e desprezamos os valores intrínsecos de cada um, ou pelo menos, estamos quase chegando lá.

Por isso, ele afirma: "Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um - o valor de nossas diferenças..." (pág. 103)

Para piorar, procuramos viver isolados (mas chamamos isso de "protegidos"), interagindo só com nossos "iguais":

"Quanto mais as pessoas permanecem num ambiente uniforme - na companhia de outras "como elas" (...) mais tornam-se propensas a "desaprender" a arte de negociar um modus convivendi e significados compartilhados." (pág. 137)

"O fato de outros discordarem de nós (...), isso não é um obstáculo no caminho que conduz à comunidade humana. Mas a convicção de que nossas opiniões são toda a verdade (...), assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são "meras opiniões", esse sim é um obstáculo." (pág.180)

Enfim, há muita coisa para refletir na leitura desse pequeno-grande livro, fruto da mente desse pequeno-grande homem.

Vale a pena conferir!


quarta-feira, 22 de março de 2017

Reparação

Ian McEwan
Companhia das Letras

"Não eram só o mal e as tramoias que tornavam as pessoas infelizes; era a confusão, eram os mal-entendidos; acima de tudo, era a incapacidade de apreender a verdade simples de que as outras pessoas são tão reais quanto nós." (página 37)

Essa trama se desenvolve a partir de um mal-entendido. Ou melhor, de vários, e suas consequências atingem não só os envolvidos, mas toda uma família.

Briony é uma adolescente de 13 anos que escreve pequenas peças teatrais para a família. É a caçula de 3 irmãos: Cecília é dez anos mais velha e Leon é o primogênito, doze anos mais velho que ela. Para quem ama escrever e interpretar, Briony tem uma imaginação supercriativa e apurada. 

Um dia, ela presencia algo:
"Briony havia chegado a uma das janelas escancaradas do quarto e certamente viu o que estava diante de seus olhos por alguns segundos antes de registrar o que via (...) O que se apresentava ali fazia sentido..." (pág.35)

Robbie Turner, o filho da faxineira que crescera com eles e tinha praticamente a mesma idade que Cecília, está conversando com ela perto da fonte. De repente, ela tira a roupa, fica com só com a roupa de baixo, e pula na fonte. Depois sai de lá, coloca a roupa, pega um vaso e sai sem conversar com Robbie. Qual seria o motivo disso? O que ela acabara de testemunhar?

A partir daí, com a chegada de primos distantes, do irmão e do amigo dele, a casa fica cheia e outro incidente acontece com o desaparecimento dos primos gêmeos de 9 anos. Briony, então, se vê como a única testemunha de um crime e não tem dúvidas de quem é o culpado. Com a revelação, o caos se instaura e a família é praticamente destruída. Cada um segue sua vida (ou o que restou dela). 
Os meses e anos passam e, aos poucos, a culpa vai se instalando na vida de Briony:

"A culpa refinava os métodos de tortura que ela se infligia, enfiando uma a uma as contas dos detalhes num fio eterno, um rosário que ela passaria o resto da vida dedilhando." (pág.131)

É uma história linda, trágica, mágica, que mostra as consequências de atos impensados na vida das pessoas que nos são mais próximas e queridas. É uma história de dor, separação, mas também é de superação, amor e, claro, reparação.

Vale a pena a leitura!