segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Vida Querida

Alice Munro
Companhia das Letras - 316 páginas

"Cada curva parece podar um pouco do que resta da minha vida."
(página 66 em "Amundsen")

Os contos de Alice Munro, autora canadense vencedora do Nobel de Literatura em 2013, são densos e, de certa forma, perturbadores.

Em "Que chegue ao Japão", vemos Greta com sua filha pequena em um trem rumo à Toronto, para encontrar seu amante. No percurso, porém, um imprevisto acontece e abala Greta profundamente.
Já em "Amundsen", conhecemos a jovem Vivi Hyde, que vai trabalhar como professora de crianças tuberculosas, em um hospital na remota Amundsen, e se envolve com o médico responsável. Ficam noivos e, novamente, algo acontece para quebrar a harmonia da situação.
Culpa pela morte da irmã pequena ("Cascalho"), chantagem emocional ("Corrie"), fuga da realidade ("Trem"), perdas ("Com vista para o lago", "Dolly") são assuntos duros, tratados com sensibilidade e lucidez pela autora em seus 14 contos, sendo os 4 últimos com traços autobiográficos.

Ele perguntou "Como vai?" e eu respondi "Bem". E aí acrescentei, só para garantir, "Feliz". (pág.69)

"Há uma cavidade em todo lugar, especialmente em seu peito." (pág.175)

É um livro que nos leva a refletir sobre situações banais que, de tão simples, podem transformar nossas vidas num piscar de olhos, caso alguma coisa saia dos trilhos.

Boa leitura!

domingo, 27 de dezembro de 2015

A brincadeira

Milan Kundera
Companhia das Letras - 352 páginas

"... não são os inimigos, e sim os amigos que condenam o homem à solidão." (página 186)

Em 1948 Jahn Ludvik era um jovem universitário, que cursava Ciências em Praga e defendia as ideias e os ideais do Partido Comunista. 
Um dia, porém, ele se apaixona por Marketa, uma garota do primeiro ano e começam um namorico mas, logo em seguida, ela decide aceitar um estágio de formação do Partido durante 15 dias, num castelo da Boêmia. 

Ele sentia a falta dela; ela transbordava alegria na carta que lhe enviara e não parecia estar com saudades dele. Aí, para "feri-la, chocá-la, desnorteá-la", ele escreve um cartão postal com uma brincadeira: "O otimismo é o ópio do gênero humano! O espírito sadio fede a imbecilidade. Viva Trótski! Ludvik."

E então, seu mundo caiu. 

Integrantes do Partido leram seu cartão, entenderam que ele zombava e depreciava os ideais defendidos e o expulsam da faculdade. De uma hora para outra, ele se viu trabalhando nas minas de Ostrava, de forma intensa, dura, cruel. Não adiantou falar, argumentar, se defender. Seu destino já fora traçado.

"A despersonalização que nos infligiam pareceu perfeitamente opaca nos primeiros dias; impessoais, impostas, as funções que exercíamos substituíam todas as nossas manifestações humanas (...) meu ser interno se recusava a aceitar seu destino." (pág. 63)

E então, depois de algum tempo, surge Lucie. Uma jovem que ele conhece em um de seus dias de folga e, logo, se vê apaixonado por ela.

"...sei muito bem que o amor tem tendência a gerar sua própria lenda, a mitificar posteriormente seus começos." (pág. 84)

Não dá para contar muito além disso, mas Ludvik cumpre seus anos de trabalho forçado, sai de Ostrava e, durante todo esse período alimenta seu ódio às pessoas que mudaram sua vida, especialmente Zemanek, o então presidente do partido na faculdade.

E ele decide voltar à Morávia, sua terra natal, para cumprir um ato de vingança. 

"Adiada, a vingança se transforma em um embuste, em religião pessoal, em mito cada dia mais afastado de seus próprios atores..." (pág. 321)

Na Morávia, Ludvik reencontra pessoas que não esperava, revê conceitos e faz belas reflexões. E a vingança? Bom, aí é melhor você ler pra saber se ele leva a cabo ou não...

Excelente leitura!



domingo, 15 de novembro de 2015

A lentidão

Milan Kundera
Companhia das Letras - 105 páginas

" ...a fonte do medo está no futuro e quem se liberta do futuro nada tem a temer." (página 7)

Minha paixão por Kundera começou com A insustentável leveza do ser, que li há cerca de 5 anos. Ele é hábil em criar personagens densos que transpiram alegrias e dores, sucessos e fracassos, de forma intensa e, por vezes, insana.

A partir de um castelo francês do século XVIII, ele cria diversas histórias, com dramas distintos, baseado nas questões: o que se passa ao meu redor? Por que as pessoas se comportam assim e não de outra forma? Por que meu comportamento foi esse? O que nossas palavras querem, de fato, dizer?

"A palavra pronunciada num pequeno espaço fechado tem um significado diferente da mesma palavra ressoando num anfiteatro." (pág. 80)

E não só conta o que se passa num encontro de entomólogos nesse castelo, com um sábio tcheco, o "dançarino" Vincent e o próprio autor com sua esposa Vera, mas retoma uma trama libertina do século XVIII para ir e vir no tempo.

Ele questiona a felicidade, o prazer, o mundo que virou um palco, a ociosidade e a velocidade da vida:

" Estaríamos nós todos presos na mesma armadilha, surpreendidos por um mundo que, subitamente, sob nossos pés, transformou-se num palco do qual não podemos sair?" (página 69)

"...será que podemos viver no prazer e para o prazer e sermos felizes? O ideal de hedonismo é realizável?" (pág. 96)

Vale a pena a leitura!




sábado, 7 de novembro de 2015

Travessuras da menina má

Mario Vargas Llosa
Alfaguara - 304 páginas

"Por sua culpa, eu perdera as ilusões que fazem da existência algo mais do que uma soma de rotinas." (página 166)

O amor que Ricardo Somocurcio sente por Lily, ou pela pessoa que se diz chamar-se Lily, começa na adolescência em Miraflores, Peru, no verão de 1950.

A "chilenita" ousada conquistou seu coração, mas logo ele descobre que a vida dela é cercada de mistérios e que não deve acreditar em tudo que diz.

O tempo passa e Ricardo vai para Paris, onde se torna tradutor pela Unesco para ganhar a vida. Lá, ele reencontra Lily, agora com o nome de camarada Arlette, a qual se prepara para ir para Cuba, como bolsista de um treinamento guerrilheiro.

Ela vai para Cuba e quando volta, casada, Ricardito, o bom menino, tem certeza que a ama e vai fazer de tudo para que ela seja sua. Tudo correria às mil maravilhas se Lily-Arlette e, agora, madame Robert Arnoux, não fosse alguém que quisesse subir na vida a todo custo, passando por cima de quem quer que fosse, inclusive Ricardito.

"...eu continua doido por ela. Foi só vê-la para reconhecer que, mesmo sabendo que qualquer relação com a menina má estava condenada ao fracasso, a única coisa que eu realmente desejava na vida, com a mesma paixão que outros dedicam a perseguir a fortuna, a glória, o sucesso ou o poder, era ela, com todas as suas mentiras, suas confusões, seu egoísmo e seus desaparecimentos..." (pág.100)

E assim, Llosa nos leva a viajar pela França, Londres, Tóquio, Peru e Madri, ao longo dos anos 50 até a década de 80, acompanhando os movimentos políticos e sociais de cada época, e as peripécias da menina má com o bom menino.

Boa leitura!

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

número ZERO

Umberto Eco
Editora Record - 208 páginas

"Quanto mais coisas uma pessoa sabe, menos coisas deram certo para ela." (página 20)

A trama se passa em Milão no ano de 1992. Um magnata, comendador Vimercate, decide criar um jornal (O Amanhã) para intimidar os poderosos da elite. Seu objetivo, porém, não é publicar o jornal de fato, mas mostrar a eles que ele tem informações valiosas para divulgar para o público caso não o aceitem como "membro" do clube da elite

Colonna, jornalista de 50 anos, separado, é chamado para trabalhar como assistente de direção de Simei, o intermediário do comendador, e deverá revisar os artigos dos outros 6 redatores convidados. 
Todos eles receberão 1 ano de salário e deverão trazer ideias que colaborem com o jornal: fatos que ficaram mal resolvidos, mal explicados ou que caíram no esquecimento, mas que podem complicar a vida de algumas pessoas ou grupos de interesse do comendador.

Quando, porém, os redatores começam a levantar os assuntos para as reportagens e, um deles, se aprofunda em questões que envolvem segredos da Segunda Guerra, de grupos secretos e do Vaticano, aí a coisa complica...

O autor não perde a oportunidade, também, de criticar a corrupção do governo e a acomodação do povo italiano, que se esquece facilmente dos escândalos e nada faz para mudar. 

Alguma semelhança com o que se passa por aqui?

Boa leitura!

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A paz que excede todo o entendimento

Kathleen Littleton
Editora Vida - 262 páginas

"A paz de Deus está à sua disposição; basta pedir. Você pode sobreviver, e eu sou testemunho vivo disso." (página 13)

A história de Kathy é encorajadora: aos 20 anos e às vésperas de se casar com o amor de sua vida, Kathy é estuprada por seu chefe, um advogado influente na região onde morava.

Sob ameaças, ela guardou o segredo de seu noivo (e depois, seu marido) e de sua família por anos, até que reencontrou casualmente seu algoz num elevador e sua segurança voltou a ser abalada.

Num drama que é familiar para milhões de mulheres ao redor do mundo, Kathy tem a coragem de contar sua história com detalhes, mostrando como a lei favorece gente influente e com grana (isso porque estamos falando de Primeiro Mundo!), apesar de todas as provas e evidências contra tais pessoas.

Ela fala de sua luta, de seus sonhos destruídos e de seu inferno pessoal, mas também fala do processo de cura e restauração que só Deus pode conceder.

Boa leitura!

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Diário de uma Paixão

Nicholas Sparks
Novo Conceito - 192 páginas

"Não sou nada especial; disso estou certo. Sou um homem comum, com pensamentos comuns e vivi uma vida comum. Não há monumentos dedicados a mim e o meu nome, em breve, será esquecido, mas amei uma pessoa com toda a minha alma e coração e, para mim, isso sempre bastou." (página 11)

Esse é Noah Calhoun, um senhor de 80 anos que mora numa casa de repouso, e vai narrar a sua história de vida numa cidadezinha interiorana dos Estados Unidos, Nova Berna.

Tudo começou em um verão, quando Noah era um adolescente e conheceu Allie em uma festa. Começaram a namorar e, as três semanas seguintes, foram os dias mais marcantes para ambos quando, então, ela teve de partir.

O que se passa depois é uma das histórias mais fofas que já vi na telinha (lembro-me de assistir ao filmes várias vezes, há cerca de 10 anos!) e, pra quem não viu ou não conhece, precisa ler!

É uma história de amor, poesia, dor, descobertas e, acima de tudo, de coragem. É pra quem acredita no amor, apesar das circunstâncias da vida, e não desiste de lutar. É pra mim e pra você.

Boa leitura!