quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Noite do Oráculo

Paul Auster
Companhia das Letras - 224 páginas

"Não queremos saber quando vamos morrer ou quando as pessoas que amamos vai nos trair. Mas somos ávidos para conhecer os mortos antes de estarem mortos, de nos relacionarmos com os mortos quando vivos." (página 115)

Sidney Orr é um escritor de 34 anos que está se recuperando de uma doença grave, que o deixou meses entre a vida e morte num hospital. Aos poucos, ele começa a caminhar pelo bairro e, depois de comprar um caderno azul de Portugal, na loja de um chinês, volta a escrever. Aliás, não só volta a escrever, como vê que as palavras nascem com urgência naquele caderninho quase mágico.

E aí, Orr começa a escrever seguindo o conselho de seu amigo mais velho e também escritor, John Trause: a partir de um gancho de O Falcão Maltês, ele cria Nick Bowen, um editor de uma grande editora, que larga a vida que tem, depois de quase morrer atingido por uma gárgula de calcário. Ele larga a esposa Eva, abandona o trabalho e pega um voo para o primeiro lugar que aparece. A trama então, se desenvolve, e Orr aos poucos vai percebendo que ficção e realidade começam a se misturar, revelando coisas futuras e passadas.

Orr é casado com Grace, a ama muito, mas sabe que ela tem um passado que nunca foi revelado. Ele não se importa até que um dia ela aparece grávida, aos prantos. Qual seria o motivo? E então, ele começa a escrever sobre isso também no famoso caderninho.

Não vou contar mais para não estragar, mas a trama te prende do começo ao fim e, sem querer, você viaja com Sidney nas suas ideias e paranoias.

"Enquanto você está sonhando, sempre tem uma saída..." (pág. 128)

Vale a pena a leitura!






sábado, 31 de dezembro de 2016

Liquidação

Imre Kertész
Companhia das Letras - 106 páginas

"Pois somos assim, homens um pouco copiados, alimentamo-nos de vidas mais fortes que a nossa, como se dessas vidas nos coubesse também uma fatia." (página 38)

Amargo é editor de B., um escritor que se suicida e deixa uma peça chamada "Liquidação", passada em 1990, em Budapeste.

B. sempre foi enigmático: nasceu em Auschwitz, num verdadeiro milagre e nunca superou o trauma da sua origem:"Ele sentia que nascera na ilegalidade, sobrevivera sem razão e sua existência não se justificava por nada..." (pág.98)

Amargo ao ler a peça, descobre muito mais que os motivos da decisão de B. para se matar, assim como descobre o que aconteceu com o romance "perdido", que gostaria de ler e publicar postumamente.

A peça, aliás, tem Amargo como protagonista e sua trama se mistura com a narração do editor e da ex-mulher de B. (Judit).

Não é uma leitura fácil, pois nos faz refletir sobre as mazelas da guerra e a destruição emocional que gera em todos que passaram por ela. Sobreviver fisicamente é uma coisa, emocionalmente é outra.

Boa leitura!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A garota no trem

Paula Hawkins
Ed Record - 375 páginas

"Às vezes, me pego tentando me lembrar da última vez que tive contato físico de verdade com alguém, um abraço, um aperto de mão que seja, e sinto uma dor no coração." (página 16)

Ganhei, ops, roubei esse livro (calma, que explico) no amigo secreto "ladrão" da firma. Claro que fiquei com dó do Fred, mas vivo o lema: "Amigos, amigos. Leituras à parte!"
Levei pra praia para ler, imaginando que ele seria minha companhia nas férias toda. Me enganei. Li em 3 dias.

A trama gira em torno de Rachel que, diariamente, pega o trem que vai de Ashbury para Londres. No caminho de ida e volta, ela gosta de apreciar a paisagem, ver as casas e imaginar o que se passa com seus moradores. Existe uma casa, em particular, que ela admira: lá vive um casal, Jess e Jason, que sempre trocam carícias no jardim e parecem ser felizes. Ela não os conhece, mas os chama assim. 

Um dia, porém, Rachel vê Jess com outro homem e, depois, fica sabendo de algo alarmante a respeito dela. Eis que se instala o dilema: ela deve procurar a polícia? O marido? Quem vai confiar nela, já que por causa da bebida não se lembra de muita coisa?

Rachel luta contra o álcool, sofre com seu divórcio (e com a aparente felicidade do ex-marido -Tom - com sua nova família) e não tem amigos. Ela teria credibilidade para ajudar a solucionar um mistério que nem a polícia está sabendo como lidar?

Vale a pena a leitura!


Obs: Sei que já saiu o filme e, pelo trailer, achei bem confuso, mas parece que Emily Blunt encarnou bem a personagem instável, "passada", preocupada e quase neurótica em alguns momentos.





domingo, 27 de novembro de 2016

Capelania hospitalar: a misericórdia em ação

Antonino Pinho Ribeiro (Pr Nino)
Ed Capelania Evangélica Hospital SP - 66 páginas



"O serviço de capelania hospitalar consiste num ministério de apoio, fortalecimento, aconselhamento e consolação, desenvolvido junto aos enfermos e seus familiares, funcionários e médicos do hospital. Consiste em levar conforto em horas de angústia, incerteza, aflição e desespero e compartilhar o amor de Deus por meio de atitudes concretas: presença, gestos, palavras, orações, textos bíblicos, música, silêncio." (Citando Baustista - página 31)

Há cerca de 5 anos conheci o Pr Nino e o trabalho que ele faz nos hospitais, com o serviço de capelania. O livro dele Há Graça no Sofrimento? me marcou, pois vi um lado que pouco se fala nas igrejas: o voluntariado com aqueles que sofrem em hospitais.

Nesse novo livrinho, o pastor conta um pouco do conceito e da origem da capelania, do perfil do capelão e dos benefícios da fé para a saúde do enfermo.

Vale a pena a leitura!

sábado, 12 de novembro de 2016

Vá, coloque um vigia

Harper Lee (1926 - 2016)
Ed José Olympio - 252 páginas

"...é sempre fácil olhar para o passado e ver como éramos ontem ou dez anos atrás. Difícil é ver o que somos hoje." (página 243 - dr Finch)

Há cerca de 1 mês escrevi sobre o melhor livro que li nos últimos anos: O Sol é para Todos e, quando soube que a história de Scout continuava em outro livro da mesma autora, corri pra comprar!

O entusiasmo durou pouco. Não porque agora Jean Louise "Scout" seja adulta (ela tem 26 anos), more em Nova Iorque e não tenha casado ainda, mas porque tudo aquilo que eu admirei em Atticus Finch, seu pai, caiu por terra.

Agora, o dr Atticus é um senhor de 72 anos, com artrite, mas ainda trabalha e é ativo na comunidade. Scout, por sua vez, vem visitá-lo sempre que possível em suas férias. Com exceção dos tios, do pai e de Calpúrnia, pouco ou nada sabemos dos outros grandes personagens de "O Sol".

Os embates sobre racismo e intolerância racial continuam fortes em Maycomb, Alabama, e novamente um negro é acusado de estuprar uma mulher branca. O tom, porém, muda e Scout não entende nada. Como pode o homem que a criou pensar de uma forma diferente da que ela aprendeu como correta? E como ela pode se casar com Henry, depois de tudo que viu e ouviu naqueles dias?

Se não fossem pelas memórias de episódios da sua infância com Jem, Dill, Henry e Calpúrnia, o livro seria maçante, batendo sempre na mesma tecla.
Ainda bem que não o li primeiro, do contrário nem seguiria adiante com o outro, que dá de dez a zero neste em todos os sentidos.

E pensar que a autora escreveu este primeiro e não publicou. Só publicou O Sol é para todos e ainda levou o Pulitzer em 1961. Décadas depois (e aliás, pouco antes de falecer), ela decidiu publicar este, talvez por entender que nessa altura da vida não tinha nada a perder.

Ela talvez não tenha perdido, mas eu sim: meu encanto por Atticus Finch se foi...


terça-feira, 4 de outubro de 2016

O sol é para todos

Harper Lee (1926-2016)
Ed José Olympio - 364 páginas

"Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas do ponto de vista dela." (Atticus, página 43)

Pensa num livro encantador: é esse! Não só pela beleza que é conhecer a história da família Finch sob o olhar da filha caçula (Scout, de 6 anos), mas porque mostra a simplicidade da vida, apesar dos estragos que a maldade humana faz.

Scout é o apelido de Jean Louise, uma garotinha que no início do livro tem 6 anos e mora com o irmão Jem (4 anos mais velho), o Pai Atticus e a babá negra Calpúrnia numa cidadezinha do Alabama chamada Maycomb, no início de 1930. A vida na cidade gira em torno da lavoura, numa época que negros e brancos tinham funções e tratamentos distintos. As igrejas, inclusive, agiam do mesmo modo: havia as congregações do brancos e as dos negros.
Atticus é um advogado branco que foi chamado para defender a causa de Tom Robinson, um pai de família negro, acusado de estuprar uma mulher branca. Atticus é um homem equilibrado, decente e estudou com detalhes a situação, indo até as últimas consequências pra defender Tom. Nesse caminho, porém, muitas pessoas da cidade se voltam contra a família Finch, inclusive as crianças.
O pai as chama de lado, conversa e explica a situação: nem todos entendem a postura dele, mas ele estava fazendo o certo, defendendo um homem no seu direito.

"Ainda que tenhamos perdido antes mesmo de começar, não significa que não  devamos tentar." (pág. 102)

A causa podia parecer perdida, as pessoas falarem, as crianças sofrerem bullying na escola, mas era o correto a ser feito.

Scout sempre ouviu e respeitou o pai, mesmo discordando de muita coisa como por exemplo, o fato dela ter de ir pra escola, no primeiro ano. Era chato ter de ficar quieta na classe pra não "atrapalhar" as demais crianças, a pedido da professora. As artimanhas, aliás, que ela usa pra não ir mais na escola são hilárias e te cativam pela ingenuidade. Não são raras as vezes que Atticus sorri diante dos dilemas da sua filha pequena, a abraça e a consola.

Quando não está na escola, Scout está brincando com Jem e Dill (sobrinho da vizinha) no quintal ou estão tentando descobrir um pouco mais do vizinho estranho que mora a poucas casas da residência deles e nunca sai de lá: por que o maluco do Boo Radley faz isso? Como aguenta viver anos sem sair pela porta, que seja?

Enfim, a vida de criança de Scout e Jem nos três anos que se seguem se confronta com a vida dura de adultos amargurados por causa da cor de pele uns dos outros. Scout não entende o racismo já que sua babá, uma segunda mãe, é negra e tem por eles um amor incondicional.

Ah, se o mundo pudesse aprender a viver com o olhar de Jean Louise: um olhar puro, doce, encantador...

"Olha, Jem, eu acho que só existe um tipo de gente: gente." (pág. 283)

O livro é lindo demais e já se tornou um dos melhores que li na vida, sem sombra de dúvida! E, por isso, a leitura é mais que recomendada: é obrigatória!



domingo, 18 de setembro de 2016

O voo da guará vermelha

Maria Valéria Rezende
Alfaguara - 180 páginas

"...o amor é como menino que não sabe contas nem de perda nem de ganho, vive desacautelado, não tem lei, não tem juízo, não se explica nem se entende, é charada e susto, mistério." (página 60)

Irene é uma prostituta soropositiva, que luta pra ganhar uns trocados para alimentar o filho pequeno. Toda segunda-feira é dia de levar alguma coisa pra ele e pra velha (sua mãe?), sendo pouco ou o mínimo razoável.

Um dia, porém, ela conhece Rosálio, um pedreiro analfabeto que está trabalhando numa obra da região. Com um passado difícil, sem nem ter tido um nome e uma certidão de nascimento, escolheu como queria ser chamado ao conhecer a professora Rosália. Não conheceu seu pai e sua mãe se suicidou tão logo ele nasceu.

"Um corpo de homem aguenta mais do que a gente imagina, por vontade de viver, mas a alma é outra coisa, vai morrendo mais depressa quando perde a esperança, quando a maldade é demais..." (pág. 88)

Apesar de tantas tragédias, o pedreiro sempre teve um sonho: aprender a ler. As palavras dos livros sempre o encantaram; suas histórias davam um outro sentido à sua existência, sempre que alguém lia algo pra ele. Não é à toa, que em suas andanças, nunca abandonou a caixa de madeira com os livros que herdou do Bugre, um amigo. Seu desejo?
"...viver muito, de poder correr caminhos caçando como aprender." (pág. 49)

E então, os destinos de Rosálio e Irene se cruzam: ele tem muita coisa pra contar; ela tem muita coisa que deseja ouvir. Ele quer aprender a ler; ela se encanta com a simplicidade dele e começa a ensiná-lo na escrita. 
Um cuida do outro; cada um se doa à sua maneira, da melhor forma.

"...deu saudade triste e boa, pensei que quem tem saudade tem na vida uma riqueza, coisas boas de lembrar, isso era tudo o que eu tinha." (pág. 82)

Com uma sensibilidade absurda, Maria Valéria discorre sobre a vida desses dois personagens, de uma forma que é impossível não se emocionar.

Leitura obrigatória pra quem tem paixão pela vida, pelos livros e pela poesia que emana da vida das pessoas.