domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Penúltimo Capítulo

Clarice Pessato
Ed Imprensa Livre - 208 páginas

"Foi no dia 22 de Novembro de 1981, numa tarde de domingo, num momento quando a fortaleza que revestia minha vida se desfez e tudo que eu confiava desabou, o teto caiu, o chão foi tirado debaixo dos meus pés e as paredes desmoronaram; tudo que acreditava se tornou falso, o infinito se tornou finito, o que parecia permanente se desfez e o poder se tornou fraqueza." (página 17)

Assim começa o relato de Clarice em sua biografia: aos 18 anos ela ficou tetraplégica, devido a um sério acidente automobilístico na estrada.
Mais velha dos três irmãos, Clári era uma jovem sonhadora, que estava na faculdade e planejava se casar com o namorado da pequena cidade de Arvorezinha, no interior do RS. Tudo caminhava para isso, até que houve o acidente.

No começo, veio a negação, como era possível ficar assim para sempre? Com força de vontade e fisioterapia, ela lutaria para voltar a andar. Depois, veio a fase de adaptação, como se fosse provisória. Mas uma hora a ficha caiu e aí ela teve que enfrentar a nova realidade.

Como retomar a vida do ponto em que ela parou? É possível estudar e trabalhar nessa situação? Como as pessoas vão reagir?

Clarice conta sua experiência de vida e é impossível não se emocionar com cada obstáculo e cada vitória (sim, ela conseguiu grandes conquistas!).

De onde ela tirou forças pra tudo isso? Da única forma possível: através de sua experiência com Jesus. O sorriso nos seus lábios nasceu daí, sua alegria passou a contagiar a todos que a cercavam e ela se tornou sal e luz nesse mundo de aparências e vaidades.

"...nós podemos ser bem-aventurados mesmo com a adversidade presente em nossa vida..." (pág. 170)

Não tive nem metade dos sofrimentos físicos dela, mas sei o que é sentir dor, parar de andar, passar dias numa UTI e ver seus sonhos desmoronados. Sei também como é sentir a verdadeira Paz, como é sentir alegria em um leito de hospital...
É algo inexplicável! Só quem sente sabe e transborda. E quem está ao redor percebe e é abençoado.

"A nossa história não acaba no ponto final de um livro, e o final feliz é muito mais profundo que "...e foram felizes para sempre". Entender que da tristeza podemos tirar alegria, que as perdas podem se tornar ganhos e que a derrota pode se transformar em vitória, é um trabalho que só um Deus de amor pode fazer." (pág. 18)

Minha oração é para que você, assim como eu e a Clarice, conheça esse Deus e caminhe em Paz e alegria com ele em toda e qualquer situação.

Leitura mais que recomendada; é obrigatória!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Uma noite no Chateau Marmont

Lauren Weisberger
Record - 496 páginas

Depois de ler os relatos impactantes das mulheres chinesas (em As boas mulheres da China), precisava de algo bem leve e não é que consegui? Na verdade, uma amiga superquerida me perguntou se eu não queria ler um romance "bem menininha", estilo Bridget Jones e não pensei duas vezes em responder "Claro que quero"!

Brooke conhece Julian Alter tocando num pequeno bar de NY e se apaixona por ele e por sua música. Cinco anos depois, já casados, ela concilia 2 empregos como nutricionista para bancar os custos de Julian com a música. É uma vida corrida e sacrificante, mas ela gosta do que faz no hospital e no colégio, e se destaca em ambos pela competência e comprometimento.

Um dia, porém, o talento de Julian explode nas rádios e, consequentemente, ele se torna uma celebridade da noite para o dia. Entrevistas, turnês, festas badaladas, paparazzis... o pacote chega completo, tumultuando a rotina pacata do casal.

Como se não bastasse tudo isso,  é divulgada na imprensa uma foto de Julian com uma desconhecida no famoso Chateau Marmont e, a partir daí, o mundo de Brooke começa a se desmoronar. Foi para isso que ela dedicou seu tempo, amor e recursos?

É um romance gostoso de se ler, pois ficamos do começo ao fim torcendo pela felicidade do casal, apesar dos inúmeros problemas que eles enfrentam (pensa que é fácil ser famoso?).

Boa leitura (especialmente nessas noites chuvosas de SP)!

(como fiquei curiosa, busquei algumas fotos do famoso Chateau...)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Se eu pudesse viver minha vida novamente

Rubem Alves (1933-2014)

"Um passado que se compartilha é um sacramento de solidariedade." (página 80)

2014 foi um ano complicado na literatura: perdemos João Ubaldo, Ariano Suassuna, Ivan Junqueira e Rubem Alves. Todos com seus dons e méritos, mas Rubem era o meu favorito.

Talvez porque ele soube ver a beleza de Deus na criação, nas coisas simples da vida; talvez porque ele entendeu que educar uma criança envolve amor e paixão acima de tudo.
Assim como em Ostra feliz não faz pérola, e outras obras e textos, ele faz poesia com a beleza das coisas, com a natureza, com o amor, com a solidão, com a dor e a morte.

"A beleza é a face visível de Deus." (pág. 16)

"O ato de ver é uma oração (...) Quem experimenta a beleza está em comunhão com o sagrado." (pág. 19)

"Toda alma é uma música que se toca (...). A poesia revela a comunhão." (pág. 22)

"A poesia opera ressurreições." (pág. 33)

"Os olhos dos poetas são sempre olhos que se despedem." (pág. 37)

"E, no entanto, é isto que nós somos, sem que tenhamos coragem para dizê-lo: um adeus." (pág 67)

"A paixão é uma perturbação da tranquilidade da alma." (pág. 115)

Ler Rubem é como brincar: faz bem para a alma!

Boa leitura.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

As boas mulheres da China

Xinran
Companhia das Letras - 256 páginas

"Eu costumava sonhar que encontraria um jeito de lavar minha dor, mas será que posso lavar a minha vida? Posso lavar o meu passado e o meu futuro?" (Hongxue - página 40)

Graças a uma superamiga Stefanie Kung (minha chinesinha favorita!), pude ler essa obra incrível!

Durante oito anos (1989-1997), Xinran apresentou um programa de rádio noturno na China, voltado para as mulheres. Nesse período, ela ouviu muitos relatos de abuso, dor, humilhação e desespero e conseguiu abrir um espaço na programação para conversar a respeito.

Além disso, ela conheceu muitas dessas vítimas em suas visitas a campo e percebeu que o mundo não sabia nada dos horrores pelas quais milhares de mulheres havia passado na época da Revolução Cultural (1966-1976).

Nesse livro-denúncia, lemos relatos absurdos, como a de Hongxue, uma garota de 17 anos, que sofria abuso sexual do pai desde o início da adolescência e que preferia se machucar para ficar internada em um hospital, do que "viver" sendo humilhada. Ali, pelo menos, ela tinha a companhia de uma mosca, que a acariciava.

Conhecemos também o drama de Hua'er, violentada em nome da "reeducação" política e a história de uma catadora de lixo, que tem um filho político bem-sucedido, mas vive nas ruas por escolha própria.

Até mesmo diante de uma catástrofe, aconteceram atrocidades. Em 1976, houve um terremoto em Tangshan, que matou cerca de 300 mil pessoas. Yang perdeu seu filha de 14 anos, depois de 14 dias em que ela ficou pendurada nos escombros do prédio em que moravam. Já Xiao Ying, uma garota de 14 anos, ficou louca depois de ter sofrido um estupro coletivo. Sua mãe, Ding, ainda sofreu com o filho que perdeu as pernas e o marido que morreu de ataque cardíaco após tomar conhecimento do que aconteceu à filha.

São muitos os relatos de abuso de poder, tirania, maldade, crueldade na China das décadas de 60 e 70, sobretudo. Em nome da Revolução e da devoção ao Partido, muitas famílias foram destruídas e muita gente perdeu a esperança na humanidade.

"...minha casa é uma mera vitrina de objetos domésticos: não existe comunicação de verdade na família, não há sorrisos nem risos. Quando estamos só nós, tudo o que se ouve são os ruídos da existência animal: comer, beber e ir ao banheiro." (mulher que teve seu casamento arranjado pelo Partido - pág. 121)

"Quarenta e cinco anos de anseio constante por ele fizeram que minhas lágrimas formassem um lago de saudade." (Jingyi, mulher que foi separada do amor de sua vida e o esperou por 45 anos - pág. 158)

"Espero que o amor suavize os calos no seu coração, disse eu.(...)
Obrigada, disse dura, mas é muito melhor estar amortecida do que sentir dor."
(Xinran em conversa com Zhou Ting, mulher que foi traída, difamada e abandona por seu 2º marido)

"Os guardas vermelhos obrigaram Shilin (de 12 anos) a olhar pela janela enquanto interrogavam e torturavam a família Wang. Puxavam-lhe o cabelo e beliscavam as pálpebras para mantê-la acordada vários dias e noites..." (pág. 174)


Vale a pena a leitura, apesar das lágrimas.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O Pintassilgo

Donna Tartt
Companhia das Letras -  728 páginas

"Mas às vezes, inesperadamente, a dor me atingia em ondas que me deixavam sem ar; e, quando as ondas recuavam, eu me via olhando para os destroços repulsivos de um naufrágio, iluminados por uma luz tão lúcida, tão deprimente e tão vazia que eu mal conseguia lembrar que o mundo algum dia chegara a ser algo que não morte." (página 88)

Ganhei esse livro do meu sobrinho, de amigo secreto, e comecei bem o ano, lendo uma trama envolvente que, apesar de ter altos e baixos, te prende do começo ao fim.

Theo Decker tem treze anos e vê sua vida desmoronar, literalmente, quando sofre um atentado terrorista em um museu de Nova Iorque. Ele estava com a mãe, Audrey, esperando a chuva passar antes de seguir para uma reunião na escola. Como a mãe amava arte, nada melhor que dar uma paradinha no museu que ficava no trajeto, e aproveitar o tempo para visitar uma exposição superconceituada, de obras-primas do Norte da Europa.

Num breve momento, os dois se separam e a bomba explode. Theo sobrevive, Audrey não. Lutando para sair dos escombros, ele ouve uma voz: era Welty, um senhor que mesmo agonizando, lhe deu algumas instruções, uma das quais era para pegar um quadro caído e guarda-lo com cuidado. A outra era para procurar Hobie na loja Hobart e Blackwell e dar um recado estranho. Junto, deveria levar seu anel.
O quadro era O Pintassilgo, de Fabritius, arte de beleza ímpar e valor inestimável.

A partir daí, a vida de Theo muda radicalmente. De início, passa a viver com a família rica de um colega de escola. Depois, com o aparecimento de um familiar, ele se muda para Vegas, conhece Boris (que o apelida de Potter) e juntos vão descobrir coisas boas e ruins (em muitos aspectos Theo vai te lembrar Holden Caulfield de Salinger). 

"Por toda parte, estranheza. Sem perceber, eu tinha deixado a realidade pra trás..." (pág. 617)

Não dá para contar mais, sob o risco de entregar as surpresas, mas o livro é instigante e foi escrito pra quem ama arte, seja ela expressa numa música ou num quadro singelo, como o de um passarinho.

Boa pedida de leitura para as férias!




sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O Teorema Katherine

John Green
Intrínseca - 302 páginas

"É possível amar muito alguém. Mas o tamanho de seu amor por uma pessoa nunca vai ser páreo para o tamanho da saudade que você vai sentir dela." (página 141)

Modinha, só pode ser modinha esse auê em torno de John Green, foi o que pensei quando li A Culpa é das Estrelas, cerca de um ano atrás. Bom, ele realmente não é lá essas coisas, principalmente por causa do tom extremamente fatalista e irônico, mas até que dá aguentar. Mas esse - O Teorema Katherine - é muito chato!
Claro que tem alguma melhora no final, mas aí você teve que resistir bravamente pra chegar lá.

A trama gira em torno de Colin Singleton, um adolescente que teve 19 namoradas chamadas Katherine, e um dia decide pegar a estrada com o amigo Hassan Harbish (um muçulmano gordinho e cheio de piadas), para tentar superar o último fora.

Nerd assumido, fanático por criar anagramas e gráficos, Colin deseja ser importante nesse mundo, deixar sua marca para a posteridade.

"Qual o sentido de estar vivo se você nem ao menos tenta fazer algo extraordinário?" (pág. 46)

Hassan, por outro lado, deseja levar uma vida boa, longe da faculdade e das responsabilidades.

É assim que partem sem destino, chegam numa cidadezinha chamada Gutshot e conhecem Lindsey e sua mãe. O que era para ser uma pequena parada, se torna uma estada um pouco maior e ali Colin decide desenvolver o seu teorema das relações amorosas, baseado em fórmulas e gráficos.

OK, isso e uma história para adolescentes mas até minha sobrinha de 12 anos (que me emprestou o livro, num momento que não tinha nada para ler e já estava ficando nervosa...), me alertou: "Tia, o livro é chato!"

Bom, talvez eu deva seguir um conselho de Lord Byron, em Lara e Don Juan, citado no livro por Colin: "A eternidade ordena a ti que esqueça." (pág. 99)

Melhor mesmo...



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O tempo entre costuras

María Dueñas
Planeta - 480 páginas

"...o mar me trouxe naquela manhã sensações esquecidas entre as dobras da memória: a carícia de uma mão querida, a firmeza de um braço amigo, a alegria do compartilhado e o anseio do desejado."

Sira Quiroga é uma jovem noiva, que vive em Madri às vésperas da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Tal qual sua mãe, é uma costureira habilidosa e, um dia, encantada por um homem desconhecido, decide abandonar tudo e partir para Tânger, em Marrocos.

E então, seu mundo desaba. Sira, de uma hora para outra, se vê sem dinheiro e sem rumo a seguir:

"...descobri, com o mais intenso desgosto, que a qualquer momento e sem causa aparente, tudo aquilo que julgamos estável pode se desajustar, desviar, entortar o rumo e começar a mudar." (página 50)

Com a ajuda de Candelária, a dona de pensão onde vive, Sira consegue montar seu ateliê de costuras e passa a atender gente da alta sociedade. Faz amizade com Rosalinda Fox (personagem histórica), se apaixona por um jornalista e, novamente, se vê diante de um grande dilema assim que a Segunda Guerra começa.

"não estava preparada para sentir de novo a angústia de uma ausência." (pág. 251)

Agora que tudo está se ajeitando, ela deve aceitar esse novo desafio?

A autora mistura personagens fictícios com personagens históricos para criar uma trama envolvente, que te prende do começo ao fim.

Vale a pena a leitura!