quarta-feira, 22 de junho de 2016

Vidas provisórias

Edney Silvestre
Editora Intrínseca - 240 páginas

"Eu riria, se pudesse. Mas os remédios me deixam num lugar entre o riso e o choro. Não. Me deixam em um lugar em que não há riso nem choro. É neste lugar que estou vivendo. Ainda." (página 129)

Paulo, o garoto de 12 anos do livro "Se eu fechar os olhos agora", reaparece aqui 9 anos depois, em 1970 como estudante de pedagogia. Ele é preso por engano, torturado e humilhado, mas "alguém" importante impede que seja morto e o manda para o exílio. Paulo, então, vai para o Chile, depois para Suécia e França.

"Este é o grande poder dos torturadores. A dor não passa. O domínio deles continua." (pág.56)

No pararelo, temos também a história de Barbara, que em 1991 parte para os Estados Unidos, fugindo dos problemas da vida. Lá, a realidade é dura, especialmente para quem vive de forma ilegal e possui uma identidade argentina falsa. Consegue um trabalho de faxineira.

Apesar de ser reservada e não se expor, ela conhece histórias de outros brasileiros. Um deles é Sílvio. Foi para o exterior ainda jovem, fez a vida como garoto de programa e agora padece com a Aids. Mesmo doente, ele se mostra alegre, irreverente e incentivador sempre que conversa com Barbara.

Paulo tenta reescrever sua história com Anna, sua namorada sueca. Barbara pensou que ia reescrevê-la com Luis Claudio, namorado brasileiro que a acolhe nos EUA. Nesse processo, ambos são obrigados a viverem vidas provisórias, vidas que não escolheram, mas que nem por isso devem ser desperdiçadas.

Boa leitura!

terça-feira, 7 de junho de 2016

A confissão da leoa

Mia Couto
Companhia das Letras - 254 páginas

"Como há espaço, dentro de nós, para enterrarmos as nossas pequenas mortes!" (página 38)

Há 5 anos li meu primeiro Mia (O outro pé da sereia) e fiquei encantada com o estilo desse autor moçambicano.

Conforme já falei em resenhas anteriores, é difícil resumir em palavras todos os sentimentos que os livros dele produz. Então, vamos à trama!

A aldeia de Kulumani se vê numa situação inusitada: o ataque de leões. Então, o adminstrador local (Florindo Makwala) decide chamar um caçador profissional: Arcanjo Baleiro. O caçador vai para a aldeia junto com um escritor, que irá registrar cada passo da empreitada.

Na aldeia mora a família de Genito Mpepe: a esposa Hanifa Assulua e a filha Mariamar. A família já foi maior, com outras 3 filhas, todas mortas. As gêmeas morreram afogadas e Silência, a filha mais velha, foi a última vítima do leão.

Os capítulos do livro intercalam trechos do diário do caçador e da visão de Mariamar. Passamos a conhecer os fatos da aldeia sob as duas óticas, uma completando a outra.

Ler Mia é abrir caminho para que o sonho, a fantasia e os fantasmas internos se aflorem. Nem sempre é fácil.

"...tristeza não é chorar. Tristeza é não ter para quem chorar." (pág. 56)

Boa leitura!

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Teoria Geral do Desassossego

Guilherme Antunes
Editora Penalux - 168 páginas

"A vida é um constante e inevitável lembrar-se de si." (página 96)

Graças à querida Dulce Miller (Onde vão parar os sonhos extraviados?), conheci o trabalho do Guilherme e foi amor à primeira vista!

Sabe quando você lê uma poesia e parece que quem escreveu andou ouvindo os sons do seu coração? Ou quando você lê uma crônica e se encanta com a sensibilidade de quem escreveu? Então, foi assim comigo, logo no primeiro livro. O autor usa as palavras para transbordar os seus (muitos) afetos:

"... no vão entre as palavras habitam nossas verdades. As palavras são, muitas vezes, pretextos para silêncios que nos confessam." (pág. 30)

Vida, amor, paixão, desejos, encontros, alegrias, medos, vontades, dores, perdas, descobrimentos...cada texto carrega consigo uma pitada de cada sentimento, em maior ou menor grau.

"...só tu sabes onde moram os meus milagres." (pág. 56)

"O que sou não foram os destinos que me fizeram, mas o teu amor em mim." (pág. 24)

"O amor dá sentido aos passos transformando-os em caminhos." (pág. 122)

Cada texto (poesia ou crônica) é um convite ao autoconhecimento, é um respiro em meio à rotina da vida, é um alento para a alma.

"Tardamos para aprender que é preciso despedir muitos medos e apegos para sermos felizes. Deixamos toda a responsabilidade para o tempo. Vivemos nos adiando." (pág. 107)

Boa leitura!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Depois de Você

Jojo Moyes
Intrínseca

"Às vezes eu tinha a sensação de que todos nós estávamos no mesmo mar de sofrimento, relutando em admitir para os outros até que ponto estávamos apenas acenando ou já nos afogando." (página 137)

Para quem leu Como eu era antes de você e ficou se perguntando o que aconteceu com Louisa Clark, finalmente vai poder matar a curiosidade agora.

Com o dinheiro herdado de Will Traynor, Lou compra um apartamento pequeno, com terraço, em Londres, e passa a trabalhar num pub no aeroporto. Apesar do chefe exigente e da fantasia horrorosa que precisa usar, ela não tem forças - nem ambição - para buscar novos desafios.

Porém, tudo muda, quando Lou conhece Sam Fielding, um paramédico que a socorre em uma circunstância inusitada: ela acabara de cair do prédio onde mora e é ele quem vai socorrê-la de ambulância. A amizade continua, uma vez que eles têm um conhecido em comum, graças ao "Grupo Seguindo em Frente" - grupo de autoajuda que Lou começa a frequentar, para superar seu luto que já dura 18 meses.

Além de Sam, surge outra pessoa na vida de Lou, que vai bagunçar, literalmente, sua rotina: Lilly. Quem é ela? O que deseja? Por que só apareceu agora?

Não dá para falar mais, sem entregar coisas importantes da trama. O livro é interessante, mas tem um clima "down" quase que o tempo todo, só melhorando no final.

Apesar de não ser da melhor safra de Jojo, vale a pena a leitura!

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Risíveis Amores

Milan Kundera
Companhia das Letras - 264 páginas

"Atravessamos o presente de olhas vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar o que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que vivemos e compreendemos o sentido do que se passou..." (página 11)


Kundera nos presenteia com 7 contos deliciosos, que se desenvolvem a partir de uma brincadeira ou mal-entendido e evoluem para desfechos inesperados. Logo de cara, percebi traços de A Brincadeira, que tem o mesmo mote, mas com consequências mais desastrosas.

O conto que mais gostei foi O jogo da carona: um casal de namorados brincam que não se conhecem e ele oferece uma carona para sua namorada-desconhecida. A partir daí, um vai descobrindo traços da personalidade e comportamento do outro, que jamais sonharam imaginar.

Em Ninguém vai rir, um professor universitário recebe uma carta elogiosa ao seu trabalho e pede para que escreva um parecer crítico a uma determinada revista, que recusava publicar um estudo de seu admirador, um tal de Zaturecky. A recusa em escrever essa crítica, já que achara o estudo ruim, e o fato de evitar o contato com Zaturecky transformam a pessoal e profissional do professor de tal forma, que ele vê num beco sem saída.

O último conto, Eduardo e Deus, conta o dilema de um jovem apaixonada por uma garota religiosa, que começa a frequentar a igreja para se aproximar mais dela. Porém, esse gesto, é interpretado como uma afronta ao regime comunista onde vive e Eduardo precisa se explicar na escola onde leciona o motivo de sua religiosidade.

"Se eu não pensasse que vivo para alguma coisa maior do que minha própria vida, sem dúvida seria incapaz de viver." (pág. 215)

Kundera não tem pudor em mostrar as contradições da vida e dos nossos sentimentos. Ele questiona o comportamento humano e suas motivações e, mesmo que a situação seja desastrosa ou crítica, ele ainda acha uma brecha para o humor e o riso.

Vale a pena a leitura!

domingo, 10 de abril de 2016

A Garota Dinamarquesa

David Ebershoff
Editora Rocco - 366 páginas

"Era maio de 1929, e ele se daria o prazo de um ano. (...) Se em um ano, exatamente, Lili e Einar não tiverem se entendido, ele viria à praça e se mataria." (página 148)

Einar e Greta moram em Copenhague, são casados e ambos são pintores: ele é bem conhecido e seus quadros vendem bem. Ela, por sua vez, é uma garota que veio da Califórnia e ainda não fez o seu nome conhecido no meio artístico.

Eles se conheceram na faculdade: Einar Wegener era professor de pintura na Academia Real de Belas-Artes e foi professor de Greta Waud. Prestes a completar 18 anos, Greta procurava um par para seu aniversário e, ao ver Einar na escadaria da faculdade, se aproximou e o convidou. O beijo veio em seguida e a certeza de que ele seria o homem com quem se casaria também.

Um belo dia, Greta estava finalizando um quadro de sua amiga Anna Fonsmark, soprano da Ópera Real da Dinamarca, mas encontrava dificuldades para pintar de cabeça. Dependia de um modelo e Anna tivera que faltar aquele dia. Greta, então, pediu um "favorzinho" ao seu marido, ao que ele respondeu: "Claro. O que você quiser." Ela pediu para que ele vestisse as meias e os sapatos de Anna. Ele vestiu e foi como se o mundo tivesse parado: sua vida ganhava um novo significado. Nesse dia nascia Lili, seu outro "eu".

Com sensibilidade, o autor se baseou em um fato real, da vida de Lili Elbe e Gerda, para criar sua ficção. Einar que, aos poucos vai desaparecendo, para dar lugar a Lili, nascera com biotipo feminino (com poucos pelos e de corpo franzino). Com o tempo, ele começa a sofrer sangramentos e, ao procurar ajuda médica, descobre que além disso, nascera com ovários atrofiados. O dilema surge: como conviver com características masculinas e femininas? Quem ele era de fato?

O drama de Einar/Lili nos comove na medida que paramos de julgar e nos colocamos no lugar do próximo. Excelente leitura para desmontar preconceitos e nos fazer refletir: e se fosse comigo? E se fosse com alguém que amamos?




p.s. não assisti ainda ao filme, mas pelo trailer, creio que conseguiram captar a sensibilidade da história.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Onde vão parar os sonhos extraviados?

Dulce Miller
Editora Penalux - 92 páginas

"O que mais dói no coração humano é a incompreensão (...) A pior das aflições é não entender o que acontece no coração do outro." (página 14)

Acompanho os tweets da querida Dulce Miller há algum tempo e, quando soube que ela iria escrever um livro, me programei pra comprar assim que saísse do forno. E assim aconteceu: fiz minha encomenda e recebi esse livro lindo, com dedicatória, que devorei em dois tempos!

Dulce abre seu coração em contos, poemas e crônicas, de forma simples, gostosa. Impossível não se identificar em várias situações, especialmente se você tem um coração pulsante e cheio de cicatrizes (e quem não tem?).

"...estou dançando conforme as minhas cicatrizes me ensinaram..." (pág. 18)

"...a lembrança da fantasia que criamos ainda me faz chorar." (pág. 24)

O poema sobre Gratidão é o meu favorito da obra: é uma oração de agradecimento pela vida, de fé e esperança num "eu" melhor daqui pra frente. É linda, linda, linda!

"Gratidão é palavra que não se diz olhando para o chão, a gente olha pro céu, em oração." (pág. 73)

Vale a pena a leitura!