quarta-feira, 22 de março de 2017

Reparação

Ian McEwan
Companhia das Letras

"Não eram só o mal e as tramoias que tornavam as pessoas infelizes; era a confusão, eram os mal-entendidos; acima de tudo, era a incapacidade de apreender a verdade simples de que as outras pessoas são tão reais quanto nós." (página 37)

Essa trama se desenvolve a partir de um mal-entendido. Ou melhor, de vários, e suas consequências atingem não só os envolvidos, mas toda uma família.

Briony é uma adolescente de 13 anos que escreve pequenas peças teatrais para a família. É a caçula de 3 irmãos: Cecília é dez anos mais velha e Leon é o primogênito, doze anos mais velho que ela. Para quem ama escrever e interpretar, Briony tem uma imaginação supercriativa e apurada. 

Um dia, ela presencia algo:
"Briony havia chegado a uma das janelas escancaradas do quarto e certamente viu o que estava diante de seus olhos por alguns segundos antes de registrar o que via (...) O que se apresentava ali fazia sentido..." (pág.35)

Robbie Turner, o filho da faxineira que crescera com eles e tinha praticamente a mesma idade que Cecília, está conversando com ela perto da fonte. De repente, ela tira a roupa, fica com só com a roupa de baixo, e pula na fonte. Depois sai de lá, coloca a roupa, pega um vaso e sai sem conversar com Robbie. Qual seria o motivo disso? O que ela acabara de testemunhar?

A partir daí, com a chegada de primos distantes, do irmão e do amigo dele, a casa fica cheia e outro incidente acontece com o desaparecimento dos primos gêmeos de 9 anos. Briony, então, se vê como a única testemunha de um crime e não tem dúvidas de quem é o culpado. Com a revelação, o caos se instaura e a família é praticamente destruída. Cada um segue sua vida (ou o que restou dela). 
Os meses e anos passam e, aos poucos, a culpa vai se instalando na vida de Briony:

"A culpa refinava os métodos de tortura que ela se infligia, enfiando uma a uma as contas dos detalhes num fio eterno, um rosário que ela passaria o resto da vida dedilhando." (pág.131)

É uma história linda, trágica, mágica, que mostra as consequências de atos impensados na vida das pessoas que nos são mais próximas e queridas. É uma história de dor, separação, mas também é de superação, amor e, claro, reparação.

Vale a pena a leitura!

quinta-feira, 9 de março de 2017

Diário de um ano ruim

J.M.Coetzee
Companhia das Letras - 242 páginas

"A pessoa se apega à convicção de que alguém, em algum lugar, a ama o suficiente para a ela se apegar, para impedir que seja levada. Mas a convicção é falsa. Todo amor é moderado, no fim. Ninguém irá com ninguém." (página 173)

Li Desonra há cerca de um ano e meio e foi meu primeiro contato com Coetzee, um autor que alia sensibilidade à dura realidade da vida. Na época, disse que o livro foi um soco no estômago (e foi mesmo!). Neste livro, porém, a situação não chega no limite físico como no outro, mas nem por isso é menos perturbador.

Aqui temos o Señor C, um respeitado escritor sul-africano de 72 anos, que mora em um condomínio na Austrália e recebe uma incumbência de um editor alemão: escrever suas opiniões acerca de temas atuais. Como ele tem uma certa dificuldade em digitar, grava suas ideias em um gravador para que sejam posteriormente escritas. 
Ao conhecer a jovem filipina Anya na lavanderia do condomínio, oferece-lhe o emprego de digitadora. Ela, que não trabalha, decide aceitar depois de conversar com seu parceiro, Alan, um investidor de sucesso.
Anya não apenas digita as ideias, mas questiona e opina também. Além disso, conversa com Alan e ambos tentam entender as opiniões do velho escritor. Nesse processo, todos vão deixando transparecer quem realmente são e, com isso, passam a enxergar o outro de uma forma diferente da que tinham até então.
É uma obra densa, que entrelaça em um mesmo capítulo trechos das opiniões do autor, dos seus pensamentos e dos pensamentos de Anya. Tudo ao mesmo tempo.
Temas como política, pedofilia, terrorismo, música, turismo e até pós-vida são tratados de forma direta, com suas afirmações e dúvidas, fazendo com que o leitor também seja obrigado a refletir e se revelar, assim como os personagens da trama.
O final é para fazer qualquer coração duro e insensível se desmanchar: lindo e comovente.

Vale a pena a leitura!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O tribunal da quinta-feira

Michel Laub
Companhia das Letras - 184 páginas

"Hoje é quinta-feira, e na retrospectiva dos últimos quatro dias o que me afetou de verdade não foi essa agressão inicial, nem a vingança pública e ruidosa promovida por Teca na sequência. Ou foi tudo isso..." (página 133)

José Victor é diretor de criação de uma agência de publicidade, tem 43 anos e nos conta como sua vida virou o caos, depois que sua ex-mulher Teca lê alguns e-mails dele e descobre sua traição com a redatora-júnior da agência.
Esses e-mails eram destinados à Walter, seu amigo de faculdade, soropositivo. Por serem amigos de longa tinham muita cumplicidade e, claro, tinham liberdade para trocar segredos e usar termos e palavras que só um melhor amigo entende, mas que fora de contexto podem ganhar outra dimensão.
Ao descobrir a traição, Teca divulga trechos dessas mensagens a um grupo de amigos e influenciadores,que disseminam toda sua raiva e rancor nas redes sociais.
A hipocrisia social é o destaque dessa narração, que coloca José como vítima do tribunal da vida e levanta questões relevantes nesses dias: até que ponto nossos segredos estão salvos num mundo que mergulha na falta de privacidade das redes sociais? O que faz alguém que comete falhas/pecados a apontar o dedo ao próximo sem considerar seus erros/pecados, apesar de serem diferentes? O que nos torna melhores que o próximo?

Achei algumas coincidências no livro: o narrador trabalha no 14º andar de uma agência de publicidade na Berrini. Eu, por anos, trabalhei no mesmo andar na mesma região, trabalhando com Marketing. Além disso, assim como o autor, tenho 43 anos e vivi a mesma época narrada por ele. Portanto ao falar da novidade da AIDS nos anos 80 e a morte de personalidades como Cazuza, Sandra Bréa, Caio Fernando e outros, voltei no tempo!

Boa leitura!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Noite do Oráculo

Paul Auster
Companhia das Letras - 224 páginas

"Não queremos saber quando vamos morrer ou quando as pessoas que amamos vai nos trair. Mas somos ávidos para conhecer os mortos antes de estarem mortos, de nos relacionarmos com os mortos quando vivos." (página 115)

Sidney Orr é um escritor de 34 anos que está se recuperando de uma doença grave, que o deixou meses entre a vida e morte num hospital. Aos poucos, ele começa a caminhar pelo bairro e, depois de comprar um caderno azul de Portugal, na loja de um chinês, volta a escrever. Aliás, não só volta a escrever, como vê que as palavras nascem com urgência naquele caderninho quase mágico.

E aí, Orr começa a escrever seguindo o conselho de seu amigo mais velho e também escritor, John Trause: a partir de um gancho de O Falcão Maltês, ele cria Nick Bowen, um editor de uma grande editora, que larga a vida que tem, depois de quase morrer atingido por uma gárgula de calcário. Ele larga a esposa Eva, abandona o trabalho e pega um voo para o primeiro lugar que aparece. A trama então, se desenvolve, e Orr aos poucos vai percebendo que ficção e realidade começam a se misturar, revelando coisas futuras e passadas.

Orr é casado com Grace, a ama muito, mas sabe que ela tem um passado que nunca foi revelado. Ele não se importa até que um dia ela aparece grávida, aos prantos. Qual seria o motivo? E então, ele começa a escrever sobre isso também no famoso caderninho.

Não vou contar mais para não estragar, mas a trama te prende do começo ao fim e, sem querer, você viaja com Sidney nas suas ideias e paranoias.

"Enquanto você está sonhando, sempre tem uma saída..." (pág. 128)

Vale a pena a leitura!






sábado, 31 de dezembro de 2016

Liquidação

Imre Kertész
Companhia das Letras - 106 páginas

"Pois somos assim, homens um pouco copiados, alimentamo-nos de vidas mais fortes que a nossa, como se dessas vidas nos coubesse também uma fatia." (página 38)

Amargo é editor de B., um escritor que se suicida e deixa uma peça chamada "Liquidação", passada em 1990, em Budapeste.

B. sempre foi enigmático: nasceu em Auschwitz, num verdadeiro milagre e nunca superou o trauma da sua origem:"Ele sentia que nascera na ilegalidade, sobrevivera sem razão e sua existência não se justificava por nada..." (pág.98)

Amargo ao ler a peça, descobre muito mais que os motivos da decisão de B. para se matar, assim como descobre o que aconteceu com o romance "perdido", que gostaria de ler e publicar postumamente.

A peça, aliás, tem Amargo como protagonista e sua trama se mistura com a narração do editor e da ex-mulher de B. (Judit).

Não é uma leitura fácil, pois nos faz refletir sobre as mazelas da guerra e a destruição emocional que gera em todos que passaram por ela. Sobreviver fisicamente é uma coisa, emocionalmente é outra.

Boa leitura!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A garota no trem

Paula Hawkins
Ed Record - 375 páginas

"Às vezes, me pego tentando me lembrar da última vez que tive contato físico de verdade com alguém, um abraço, um aperto de mão que seja, e sinto uma dor no coração." (página 16)

Ganhei, ops, roubei esse livro (calma, que explico) no amigo secreto "ladrão" da firma. Claro que fiquei com dó do Fred, mas vivo o lema: "Amigos, amigos. Leituras à parte!"
Levei pra praia para ler, imaginando que ele seria minha companhia nas férias toda. Me enganei. Li em 3 dias.

A trama gira em torno de Rachel que, diariamente, pega o trem que vai de Ashbury para Londres. No caminho de ida e volta, ela gosta de apreciar a paisagem, ver as casas e imaginar o que se passa com seus moradores. Existe uma casa, em particular, que ela admira: lá vive um casal, Jess e Jason, que sempre trocam carícias no jardim e parecem ser felizes. Ela não os conhece, mas os chama assim. 

Um dia, porém, Rachel vê Jess com outro homem e, depois, fica sabendo de algo alarmante a respeito dela. Eis que se instala o dilema: ela deve procurar a polícia? O marido? Quem vai confiar nela, já que por causa da bebida não se lembra de muita coisa?

Rachel luta contra o álcool, sofre com seu divórcio (e com a aparente felicidade do ex-marido -Tom - com sua nova família) e não tem amigos. Ela teria credibilidade para ajudar a solucionar um mistério que nem a polícia está sabendo como lidar?

Vale a pena a leitura!


Obs: Sei que já saiu o filme e, pelo trailer, achei bem confuso, mas parece que Emily Blunt encarnou bem a personagem instável, "passada", preocupada e quase neurótica em alguns momentos.





domingo, 27 de novembro de 2016

Capelania hospitalar: a misericórdia em ação

Antonino Pinho Ribeiro (Pr Nino)
Ed Capelania Evangélica Hospital SP - 66 páginas



"O serviço de capelania hospitalar consiste num ministério de apoio, fortalecimento, aconselhamento e consolação, desenvolvido junto aos enfermos e seus familiares, funcionários e médicos do hospital. Consiste em levar conforto em horas de angústia, incerteza, aflição e desespero e compartilhar o amor de Deus por meio de atitudes concretas: presença, gestos, palavras, orações, textos bíblicos, música, silêncio." (Citando Baustista - página 31)

Há cerca de 5 anos conheci o Pr Nino e o trabalho que ele faz nos hospitais, com o serviço de capelania. O livro dele Há Graça no Sofrimento? me marcou, pois vi um lado que pouco se fala nas igrejas: o voluntariado com aqueles que sofrem em hospitais.

Nesse novo livrinho, o pastor conta um pouco do conceito e da origem da capelania, do perfil do capelão e dos benefícios da fé para a saúde do enfermo.

Vale a pena a leitura!