sábado, 13 de julho de 2013

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.

Mia Couto
Companhia das Letras - 262 páginas

"A vontade é de chorar. Mas não tenho idade nem ombro onde escoar tristezas." (página 18)

Fui apresentada à obra de Mia Couto por um querido amigo, há quase 3 anos e me encantei por sua sensibilidade.

Esse autor moçambicano fala dos brancos e pretos, da terra e da cidade, do pobre e do rico, da vida e da morte. Aqui não é diferente: o jovem Mariano é chamado a voltar para a Ilha de Luar-do-Chão para dirigir a cerimônia fúnebre de seu avô, Dito Mariano. Morando na cidade, agora se sente um estranho em sua própria terra e família.

O médico do avô - o indiano Amílcar Mascarenha - , por sua vez, não consegue precisar se Dito está mesmo morto e, quando o neto chega na casa, entende que sua principal missão não é enterrar o avô, mas trazer ordem e paz à Nyumba-Kaya (seu lar).

"...quem parte de um lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna."

Personagens marcantes carregam suas histórias e viajamos junto com eles: dona Miserinha (a negra gorda que enxerga sombras), Curozero Muando (o único coveiro da ilha), padre Nunes (que permite com que um burro viva dentro da igreja), tia Admirança, tio Abstinêncio, tio Ultímio, pai Fulano Malta, vó Dulcineusa. Não são apenas nomes estranhos e curiosos, mas representam pessoas com seus segredos, sonhos, amores e dores.

"Era ela [ a cega Miserinha ] que estava vendo sombras? Ou seriam os demais que já nada enxergam, dentro dessa cegueira que é deixarmos de sofrer pelos outros?"

Poesia, lirismo e muitas alegorias estão presentes do começo ao fim, assim como em O Outro pé da Sereia, que foi o primeiro livro que li de Mia.

Excelente dica de leitura para as férias!

2 comentários:

  1. Fui Sabendo de Mim

    Fui sabendo de mim
    por aquilo que perdia

    pedaços que saíram de mim
    com o mistério de serem poucos
    e valerem só quando os perdia

    fui ficando
    por umbrais
    aquém do passo
    que nunca ousei

    eu vi
    a árvore morta
    e soube que mentia
    Mia Couto

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    1. Aprendi a ler Mia e nunca mais parei...

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