quarta-feira, 31 de maio de 2023

Olhai os lírios do campo


Érico Veríssimo (1905-1975)
Companhia das Letras - 288 páginas

"Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente. São estes intervalos entre um trabalho cansativo e outro trabalho cansativo, estes momentos em que a gente pode conversar com um amigo, brincar com os filhos, ler um bom livro... O erro é pensar que o conforto permanente, o bem-estar que nunca acaba e o gozo de todas as horas são a verdadeira felicidade." (página 258)

Assim que voltei do hospital, depois de ficar internada por 3 meses, procurei uma leitura leve e achei essa obra prima. Pensa num livro delicioso de ler e que traz reflexões maravilhosas acerca da vida, dos desejos, dos sonhos e da sociedade.

Estamos na década de 1930 e nossos olhos estão sobre Eugênio e Olívia, dois estudantes de medicina, que acabaram de receber seus diplomas e compartilham suas esperanças a partir desse grande acontecimento. Por terem origem humilde, lutaram muito para chegar onde chegaram, mas cada um enxerga o mundo a sua maneira: ele duvida da existência de Deus e remói seu passado pobre e repleto de humilhações; ela, por sua vez, crê em Deus e encara a vida sob a ótica do amor e graça divinos.

A amizade deles cresce dia a dia, em cada ocorrência médica, em cada momento que estão juntos. Sem perceber, estão tecendo juntos o futuro até que uma grande decisão é tomada por um deles e tudo começar a mudar.

Se você procura leveza e uma boa trama, vai se deliciar com essa obra que, apesar de ter quase 100 anos, trata de temas tão pertinentes e atuais como nunca.

Boa leitura!




segunda-feira, 15 de maio de 2023

Um caminho para a liberdade

 


Jojo Moyes

Ed Intrínseca - 368 páginas

Baileyville não era diferente das outras cidadezinhas do sul da Appalachia. Aninhada entre dois cumes, tinha 2 ruas principais com uma mistura intrincada de edifícios de tijolos e madeira, ligadas por um V, do qual brotavam inúmeros caminhos e trilhas sinuosos que levavam, no nível mais baixo, a vales distantes e, no mais alto, a casas na montanha, espalhadas pelos cumes cobertos de árvores.

Li cerca de 7 livros da Jojo e esse não é dos melhores, mas tem uma trama diferente e, de certa forma, envolvente. Trata-se de um projeto de "delivery" de livros a moradores pobres que moram nos lugares mais ermos e afastados da cidade (Baileyville, no interior dos EUA). Os livros são levados nos lombos dos cavalos e burros e depois de alguns dias são recolhidos, haja chuva/neve, haja sol!

O projeto ficou conhecido como a Biblioteca a Cavalo de WPA e contava com a participação de 5 moças - Alice, Margery, Izzy, Beth e Sophia -, cada uma com uma história de vida e problemas pessoais.

Estamos no final da década de 1930 e a sociedade local é machista e preconceituosa. Qualquer coisa é motivo para brigas, intrigas e mentiras e, obviamente, em algum momento, alguém vai ser atingido. Só que essas mulheres são feras e formam, de fato, um time! Mexeu com uma, mexeu com todas!

Em alguns momentos, a leitura fica meio cansativa e previsível, mas vale como entretenimento.

Boa Leitura!


Obs: li também A garota que você deixou pra trás, Como eu era antes de vocêA última carta de amor, entre outros.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Os sete maridos de Evelyn Hugo


Taylor Jenkins Reid
Editora Paralela - 354 páginas

"...intimidade tem a ver mesmo é com a verdade.
Quando a pessoa percebe que pode contar a verdade para alguém, que pode se abrir, que pode desabafar totalmente e receber como resposta 'Comigo essas coisas estão a salvo'. Isso é intimidade."
(página 108)


Esse é o tipo de livro que você começa a ler como quem não quer nada e, quando vê, não consegue largar mais!

Monique Grant trabalha para uma revista, mas ainda não chegou onde queria. Na vida pessoal, vira e mexe se pega pensando e remoendo a partida do seu amor: foi isso mesmo que aconteceu? Como algo que começa tão lindo acaba assim, com alguém saindo pela porta e não voltando mais?

Um dia, porém, ela recebe um convite: a assessoria de Evelyn Hugo, uma estrela de cinema que fez muito sucesso e hoje encontra-se "aposentada", a procura para escrever sobre sobre sua vida. A estrela já está com 79 anos, teve 7 maridos conhecidos do público e agora decidiu contar suas memórias, sem censuras. O curioso é que ela - Monique - foi a escolhida para esse papel. Por que, se ela nem era famosa ou tão conhecida assim?

Claro que Monique foi encontrá-la e aceitou o desafio, gravando dias e dias de memórias e é aí que a história se mostra deliciosa de se ler! Evelyn abre o jogo, conta o que se sabe e muito do que ninguém sabe, e Monique vai se envolvendo, ora amando Evelyn, ora odiando. 

Não dá dá pra contar mais pra não estragar as surpresas, mas é impossível você ler e não se envolver como Monique.


Boa leitura!


sexta-feira, 15 de abril de 2022

Torto arado


Itamar Vieira Júnior
Ed Todavia - 264 páginas

"Atravessei o tempo como se caminhasse sobre as águas de um rio bravo. A luta era desigual e o preço foi carregar a derrota dos sonhos, muitas vezes." (página 212)

Bibiana e Belonísia são duas irmãs que, a partir de um trágico acidente, se tornam mais próximas, "quase siamesas".

Descendentes de escravos, filhas de trabalhadores rurais numa grande fazenda do sertão baiano, elas crescem juntas, dividindo as alegrias e dores da infância e adolescência.

Filhas de Zeca Chapéu Grande, o curandeiro que incorpora entidades e faz encantamentos, e dona Salustiana, as meninas aprenderam o que a ganância dos ricos faz quando os pobres "incomodam". E esse "incomodar" significa apenas que acordaram para exigir seus direitos.

A trama se desenrola numa prosa gostosa de se ler. O autor nos leva pela mão para caminhar em chãos áridos de Água Negra, a sofrer com a dureza da vida daquele povo e a torcer por um futuro melhor.

Enfim, estamos diante de uma obra de arte que deve ser degustada, apesar de momentos amargos e dolorosos, e aplaudida por sua beleza.

Boa leitura!


quarta-feira, 13 de abril de 2022

Tudo é rio

 

Carla Madeira
Ed Record - 210 páginas


"... e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo."
(página 19)

Essa é a história de amor - e desamor - de Dalva e Venâncio. E também de Lucy, a famosa prostituta da região.

A vida podia ser simples e seguir o rumo do rio, mas as adversidades existem - ou porque procuramos ou porque aparecem espontaneamente - e trazem suas lutas e consequências.

Dalva foi criada cercada de muito amor, alegria e cantoria. No seu casamento o vestido trazia bordado os nomes do todos que eram importantes para ela, aliás, cada um teceu ali o seu afeto e carinho. Já Venâncio, teve uma infância difícil com o pai, aprendeu a arte da marcenaria e teve que lidar com seu ciúme excessivo na base da dor e sofrimento.

Lucy, por sua vez, ficou órfã cedo e foi morar com os tios, onde se viu preterida no amor da tia, encontrando na sedução dos homens a sua alegria e desafio de vida.

Um dia, o destino uniu esse trio e a autora conseguiu transformar em poesia cada detalhe da trama, mesmo quando a vida se mostrou dura e cruel.

Nem tudo são flores e, pessoalmente, fiquei muito chocada numa parte decisiva da história (aliás, mudaria facinho esse trecho, sem prejudicar o rumo da coisa), mas apesar de tudo, ela soube conduzir e superar as tragédias com maestria e sensibilidade.

"Os lábios dele tocaram de leve nos lábios dela, como o pouso de mil borboletas brancas. Tomaram uma distância miúda, quase invisível, e se encostaram de novo, um vai e vem sereno embalou os dois aumentando aos poucos a vontade de demorar ali (...) É para coisas assim que nascemos. Quem para o tempo nesse sentir sai diferente. Muda. Conhece a força de existir." (pág 87)

A leitura flui fácil e, quando você vê, leu mais da metade de uma vez só.

Boa leitura!


terça-feira, 1 de março de 2022

O Segredo do Contentamento


William B. Barckley
Nutra Publicações - 184 páginas

"Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nEle" (Pipper, citado - pág 17)

Ganhei esse livro de uma grande amiga no último Natal e posso dizer que devorei, uma vez que o autor escreve de uma forma fluída, cheia de exemplos pessoais, citações (maravilhosas!) e muitos versículos.

Vivemos na era da busca pelo prazer e pela felicidade, mas mesmo quando a alcançamos, segundo os "padrões" do mundo, logo queremos mais e mais...

"Somos tentados a achar que seríamos felizes com só mais um pouco... Os seres humanos sempre parecem querer ter o que não podem." (pág 23)

E isso, se considerarmos que está tudo relativamente bem na vida da pessoa, porque se alguma coisinha não vai bem pronto, já é motivo para andar 30 casas para trás no jogo da vida.

"A busca por uma felicidade fundada nas circunstâncias da vida gera inquietação e descontentamento em nossa alma." (pág. 24)

Paulo, na carta aos Filipenses, fala que aprendeu a estar contente em qualquer situação. Apesar de ter sido preso, passar fome, ter um espinho na carne, ele conseguiu aprender a arte do contentamento, a ser grato e depender exclusivamente de Deus, seja na fartura ou na privação.

"O coração contente reconhece e tem prazer no poder soberano e na bondade providencial de Deus." (pág 25) "É fruto de estar satisfeito com Deus" (pág 28). 

"Contentamento cristão é aquele estado doce, interior, sereno e gracioso de espirito, que livremente se submete e se delicia na disposição sábia e paternal de Deus em toda e qualquer situação." (Jeremiah Borroughs citado - pág 38)

A Bíblia tem vários versículos que abordam o tema contentamento x descontentamento:

Contentai-vos com as coisas que tendes (Hebreus 13:5)
Grande fonte de lucro é a piedade com contentamento (I Timóteo 6:6)
Fazei tudo sem murmurações nem contendas (Fip 2:14)

"A busca por contentamento é, por essência, a busca da paz." (pág 52)
Sim, aquela paz que excede todo o entendimento humano e que já provei em momentos bem difíceis da minha vida!

"Há um céu na alma do homem piedoso" (Borroughs, citado - pág125)

O autor segue adiante, abordando os perigos do espírito murmurador e descontente, o descontentamento piedoso (de se querer buscar cada vez mais a Cristo), o como encontrar contentamento na aflição, o contentamento no anseio pelo céu, entre outros.

É um livro que nos ajuda a enxergar o cuidado de Deus em nossas vidas, apesar das aflições, e ver que é possível nos deleitar em sua graça e descansar nEle! É sentir sua paz e presença independentemente das circunstâncias. É desfrutar e descansar nEle.

Leitura imprescindível, ainda mais nos dias atuais...

Boa leitura!


domingo, 18 de julho de 2021

Pachinko


Min Jin Lee
Ed Intrínseca - 528 páginas

"Sou muito grato por esse trabalho (...) 
O Senhor proverá." (pagina 138)

Comprei esse livro por indicação de duas amigas (achei muita coincidência!) e posso dizer que ele entrou para a lista dos meus preferidos!

Tudo começa na Coreia, início do século XX, numa ilha chamada Yeongdo, com Hoonie, aleijado dos pés, que se casa com Yangjin, graças ao arranjo de uma casamenteira. Sim teve arranjo, afinal nenhuma família decente ia deixar sua filha se casar "com alguém com deformidades, já que essas coisas passavam inevitavelmente para as gerações seguintes." (pág 13). 

Mas Hoonie teve sorte pois a jovem casou com ele e o amou. Tiveram filhos e apenas uma filha sobreviveu, Sunja. Ela nasceu perfeita e era a vida de seu pai! Viviam numa ilha e alugavam quartos para os pescadores locais. A vida era simples e paradisíaca e o destino de Sunja seria se casar e morrer por ali. 

Porém, um dia ela conheceu Hansu em Busan, cidade próxima onde ia fazer compras de mercado, e se encantou pelo homem mais velho, bem vestido e cheio de cuidados, que a acudiu de um incidente com moleques japoneses. Conversaram, passearam na praia e, de repente, ela se viu apaixonada por ele. Tudo podia ser perfeito, mas não foi e a vida de Sunja mudou do dia para noite. Quando ela deu por si, estava casada, no Japão, sem saber falar a língua e tendo de lutar para sobreviver.

Perdas, dores, lutas, nascimentos, mortes, encarceramento, fé. A realidade de Sunja e dos seus entra num verdadeiro redemoinho, numa época de guerra, de falta de comida e sem perspectiva de futuro! 

Mas o futuro chega e com ele, conhecemos a vida dos seus descendentes: filhos e netos. Conhecemos também um pouco do pachinko (salões de jogos), que entrou na vida da família para ser o ganha pão, trazendo consigo desconfiança de alguns e preconceito de outros.

Se eu contar mais (e dá vontade!), vou entregar muito spoiler, o que abomino! Só dou o gostinho das primeiras páginas para incentivar a leitura dessa obra sensível e encantadora!

Vale a pena a leitura!