domingo, 8 de fevereiro de 2026

A biblioteca da meia-noite


Matt Haig
Bertrand Brasil - 308 páginas

"Entre a vida e a morte há uma biblioteca, disse ela. E, dentro dessa biblioteca, as prateleiras não tem fim. Cada livro oferece uma oportunidade de experimentar outra vida que você poderia ter vivido. De ver como as coisas seriam se tivesse feito outras escolhas..." (página 41)

Quantas vezes você já pensou: “E se eu tivesse escolhido diferente?”
Essa é a pergunta que ecoa nessa obra de Matt Haig, e que acompanha o leitor do começo ao fim.

Nora Seed um dia decide que não quer mais viver porque tudo ao seu redor estava dando errado ela achava que a culpa era dela e das más escolhas. Não se sentia útil e a saída foi interromper sua vida. Mas algo aconteceu e ela foi parar numa biblioteca diferente, que só existe no limiar da vida e da morte. Nela, cada livro representa uma vida que poderia ter sido vivida a partir de escolhas diferentes. Profissões não seguidas, amores deixados para trás, caminhos abandonados. Tudo aquilo que, em algum momento, virou arrependimento. Inclusive, Nora encontrou também um livro só com seus arrependimentos e não eram poucos!

E aí, em cada capítulo, vamos acompanhando algumas possibilidades da vida da Nora, com seus acertos e erros, alegrias e tristezas.

A gente idealiza as vidas que não viveu, como se nelas não houvesse dor, fracasso ou medo. Como se o simples fato de ter escolhido diferente garantisse felicidade e nenhum problema adicional viesse junto.

Mas o livro mostra algo muito verdadeiro: toda escolha carrega perdas. Não existe caminho sem renúncia. E não viver uma vida também é, de certa forma, uma escolha.

Ao longo da história, entendemos que o peso não está exatamente nas decisões erradas, mas na forma como contamos essas decisões para nós mesmos. Somos duros demais com o nosso passado, como se soubéssemos tudo naquela época, como se não tivéssemos feito o melhor que podíamos com o que tínhamos.

A Biblioteca da Meia-Noite nos convida a olhar para o presente com mais gentileza. A vida não pede perfeição, ela pede presença. Pede que a gente pare de viver no “e se” e comece a viver no presente.

Não existe uma vida perfeita em outra estante.
Existe apenas a vida que está aberta agora, esperando para ser vivida com menos culpa e mais compaixão por quem somos.

Boa leitura!

domingo, 18 de janeiro de 2026

Todas as suas imperfeições


Colleen Hoover
Ed Record - 304 páginas

Nosso casamento não é perfeito. Nenhum casamento é perfeito. Houve momentos em que ela desistiu de nós. Houve ainda mais vezes em que eu desisti de nós. 
O segredo para nossa longevidade é que jamais desistimos ao mesmo tempo. 
(Página 200)

O primeiro livro da autora que li foi Verity, há cerca de dois anos, e foi impossível não ficar impactada — principalmente pelas reviravoltas e pelo final surpreendente. Depois dele, li mais dois livros dela (É assim que acaba e É assim que começa) e gostei bastante, com algumas ressalvas que já postei aqui.

Este, agora, ganhei de uma amiga, e foi uma leitura que me envolveu do começo ao fim.

Os capítulos são intercalados entre o presente e o passado, mostrando como Graham e Quinn se conheceram (no pior dia da vida deles) e como a relação foi construída. É muito interessante perceber como aquilo que não foi dito, o que ficou subentendido ou apenas sentido, vai se acumulando até gerar conflitos maiores. Essa construção emocional é um dos pontos fortes do livro e é bem amarrada.

A história prende, faz a gente torcer pelo casal e, ao mesmo tempo, passar por todos os altos e baixos junto com eles. Há momentos de crise em que cada personagem reage de forma diferente, e confesso que, em alguns trechos, senti raiva de um ou de outro — tanto pelas atitudes quanto pelas reações.

Gostei do final, apesar de não ter sido surpreendente, mas foi emocionante e coerente com toda a trajetória dos personagens.

Vale muito a pena a leitura, especialmente se você gosta de histórias reais, intensas e cheias de imperfeições, como a vida.



quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

As heroínas


Kristin Hannah
Arqueiro - 416 páginas

O silêncio era a camuflagem perfeita para a dor.
(Página 252)

Ler Kristin Hannah é um caminho sem volta pra quem gosta de romances de época, com dramas e muitas lutas.

Depois de ler As cores da vidaOs quatro ventos e o aclamado O Rouxinol, chegou a vez de conhecer As heroínas.

Frances McGrath era uma jovem que vivia nos anos 60 numa família de posses e conservadora, onde a imagem e os feitos falavam alto. 

Seu pai, apesar de nunca ter enfrentado uma guerra, tinha uma parede em seu escritório com fotos de seus antepassados, em diversos momentos servindo as forças armadas. Seu irmão, Finn, se alistou para lutar no Vietnã. E ela, querendo mostrar que também tinha valor e podia dar orgulho ao pai, decidiu que também iria servir no Vietnã. Não como militar, mas sim como enfermeira.

E foi assim que, mesmo inexperiente, ela partiu pra guerra e viveu situações que ela jamais imaginaria presenciar, muito menos viver! Ao lado de outras duas enfermeiras, Barb e Ethel, e de diversos médicos e assistentes, ela enfrentou dor, calor, sede, pressão psicológica, exaustão extrema e muitos desafios diários.

Frankie conheceu o amor, a perda e a morte, e precisou amadurecer pra manter a sanidade mental e sobreviver.

Com uma narrativa envolvente, Kristin Hannah nos faz mergulhar nos anos de tensão da guerra no Vietnã, com os impactos na sociedade norte-americana e, em especial, nas famílias de todos que morreram ou que voltaram abalados/sequelados daquela guerra terrível e sem sentido.

Como poderia juntar seus cacos se não parava de se despedaçar? (pág 344)

A luta de Frankie não terminou no Vietnã e a gente fica torcendo a cada página por essa heroína que tanto se doou e tanto se machucou, seja lá, seja no seu próprio país.

Vale a pena a leitura!

sábado, 1 de novembro de 2025

O Totem da paz


Don Richardson
Editora Betânia - 336 páginas

" Tuan, não vá para junto dos sawis. Eles matam as pessoas e as devoram." (página 122)

Esse livro não é para os fracos não...

Precisa coragem pra ler sem sentir arrepios na espinha em cada página.

Trata-se da experiência missionária de Don Richardson e sua esposa Carol entre o povo Sawi, uma tribo na região que hoje corresponde a parte da Papua (Indonésia, então Nova Guiné Holandesa).
Eles foram para lá em 1962 para viver entre os Sawis, aprender seu idioma e cultura, e levar a mensagem de salvação em Jesus. Detalhe: foram com o filhinho de 7 meses no meio de um povo que era canibal.

Os problemas enfrentados foram vários: desde o idioma complexo (com cerca de 19 tempos verbais) até a hostilidade que era algo cultivado com se fosse uma virtude! Na tradição dos Sawis, a traição era vista como uma virtude — “engordar com amizade para depois fazer a matança” (pág 11). Ou seja, a traição era o máximo e a pregação do evangelho não fazia sentido, uma vez que viam Jesus como fraco e Judas Iscariotes como o herói que trai. O sacrifício de Jesus na cruz não era algo fácil de se explicar e, muito menos, de se entender.

"A criança sawi é treinada para conseguir tudo o que deseja simplesmente pela força da violência ou de acessos de cólera. Ela é constantemente encorajada a "vingar-se" a cada vez que é insultada ou magoada." (pág 205)

Don tinha a percepção de que tinha que encontrar alguma ponte cultural para explicar o cerne do cristianismo. Sem isso, não iriam entender sua mensagem.

A “virada” veio quando ele testemunhou um ritual entre tribos guerreiras, onde um menino era entregue por uma tribo à outra como símbolo da paz — esse menino era o “filho da paz” e deveria ser criado pela outra família.

Richardson, então, reinterpretou o evangelho dizendo: “Jesus é o Filho da Paz que Deus deu, para reconciliar inimigos — Ele foi entregue, aceito, e assim trouxe paz.” Ao usar esse paralelo, os Sawis deixaram de ver Jesus como vítima ou fraco, e começaram a vê-lo como aquele que realmente trouxe paz a todos que o convidam a fazer parte da sua vida.

Há muitos detalhes no livro da cultura, dos rituais, das guerras etc, mas vou deixar para que você leia e conheça mais desse casal corajoso e cheio de fé em Jesus.

Vale a pena a leitura!


 

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

A cirurgiã


Leslie Wolfe
Faro Editorial - 224 páginas

"Em algum lugar, a alguns quilômetros ao sul dali, o corpo de um homem está em uma maca no necrotério. Fui eu que o coloquei lá?"
(página 32)

A dra Anne Wiley é uma cirurgiã cardíaca que nunca perdeu um paciente. Inclusive por causa disso, se tornou a garota do coração, na mídia de outdoor do hospital. Casada com um advogado (Derreck), demonstrava viver uma vida perfeita e invejável. 
Até que ela perde um paciente numa cirurgia nem tão difícil e sua vida vira de ponta cabeça!

Como ela foi perder aquele paciente? O que deu de errado? Ela teria contribuído de alguma forma para que o final fosse esse?

O pior é que ela começou a ser investigada por Paula Fuselier, uma procuradora ambiciosa, que a quer ver presa de qualquer jeito. Ela teria algum motivo pra isso?

Os capítulos intercalam os momentos de Anne e de Paula, entrelaçando as duas histórias de uma forma tensa e cheia de surpresas.

Vale a pena a leitura!

domingo, 24 de agosto de 2025

É assim que começa

Colleen Hoover
Editora Record - 336 páginas

" Toda pessoa que já deixou um cônjuge manipulador e abusivo e conseguiu se manter longe dele merece uma medalha. Uma estátua. Um filme de super-herói..." (página 119)

Um dos maiores erros que existe na literatura é a continuação de um livro porque as pessoas pedem. Gente, esse livro nasceu por causa disse e, pra mim, pareceu tão artificial!

Li de teimosia, mas é aquilo que você acha: a reaproximação de Lily e Atlas, permeada pelo medo das reações de Ryle.

Claro, pra não cansar, Atlas descobre algo da sua família e tenta resolver da melhor possível, afinal ele é perfeito demais!

Desculpe, mas a trama dava pra ser contata em menos de 100 páginas e não trouxe novidade alguma.

Se puder, passe e fique no primeiro livro só (mesmo porque sempre é melhor imaginar o "felizes para sempre" do que ler depois e se decepcionar com tanto chavão ou situações improváveis).

sábado, 22 de março de 2025

É assim que acaba


Colleen Hoover
Editora Record - 368 páginas

"Começo a balançar a cabeça, querendo esquecer os últimos quinze segundos. Quinze segundos. Só isso já basta para mudar completamente tudo sobre uma pessoa." (página 185)

Lily Bloom é uma jovem de 23 anos que acabou de enterrar o pai, e se encontra no parapeito de um edifício alto, pensando na morte, quando tem seus devaneios interrompidos por um estranho, que chega bravo, chutando uma cadeira. Ele é o neurocirurgião Ryle Kincaid e, logo de cara, rola um clima entre eles, mas nada acontece, apenas um diálogo onde eles dividem verdades nuas e cruas. O reencontro e paixão vai ocorrer depois.

Primeiro assisti ao filme e, por ter gostado e visto toda a repercussão das brigas entre os atores principais, decidi ler o livro também.

Obviamente, tem muita coisa diferente, a começar do local onde Lily vive: aqui ela divide um apartamento com uma amiga, que nem aparece no filme. Além disso, Lily tem um diário, onde ela escreve para uma Ellen DeGeneris fictícia, contando detalhes de sua vida e lembrando fatos do seu programa. No filme, ela é sequer citada.

Um fato interessante no filme é que Lily é interpretada pela estonteante Blake Lively, no auge dos seus 37 anos, então muitos dos conflitos e dúvidas juvenis de Lily não combinam muito bem. Até não entendo o porquê da escolha dela, não desmerecendo seu talento, mas pela idade da personagem mesmo. E ainda teve todo o lance do climão pós filmagem entre ela e o Justin Baldoni (Ryle)... Enfim, Lily é mais jovem que Blake e está em busca de seu espaço, ao abrir uma floricultura em Boston.

A coincidência da irmã de Ryle querer trabalhar na floricultura de Lily, apesar dela ser rica e ter de tudo, é estranha no filme e no livro, mas aqui dá pra perceber como a amizade entre as duas cresceu a tal ponto, de se amarem como irmãs. Allysa é o porto seguro de Lily no trabalho e na vida pessoal. Ela não é uma coadjuvante como parece ser no filme.

E, claro, ainda tem Atlas Corrigan, o "sem teto" que foi a paixão de Lily na adolescência e acabou sumindo depois de conseguir ir morar com um tio em outra cidade. Aqui temos mais detalhes da história de Atlas e o ator Brandon Sklenar super encorporou o personagem.

O tema da violência contra a mulher é tratado sob 2 ângulos: um com um pai que bebia e descontava na esposa e outro que, depois de sofrer um trauma na infância, passou a agir assim em algumas situações específicas. Em ambos os casos, não há justificativa pra qualquer tipo de violência, ainda mais dentro de casa, com sua esposa. As reflexões que Lily faz são pertinentes demais, especialmente pra quem viveu/vive algo similar em casa, uma vez que podemos ser tentadas a justificar, relevar, seguir em frente para que nossos filhos tenham um teto pra morar, custe o que custar. Mas será que essa é a única saída nessas situações?

Vale a pena a leitura!