sábado, 31 de outubro de 2026

Uma delicada coleção de ausências


Aline Bei
Companhia das Letras - 288 páginas

"que saída tem um rosto a não ser sustentar em silêncio escolhas que nunca foram suas?"

Fazia tempo que queria ler algo da Aline Bei e posso dizer que fiquei positivamente surpresa com a forma como ela conduz a narrativa e, principalmente, com sua habilidade para descrever o universo feminino. 

As dores, os medos, as expectativas e os sonhos das mulheres aparecem retratados com uma sensibilidade impressionante, em uma escrita que é ao mesmo tempo bonita, delicada e intensa.

A trama acompanha o cotidiano de Margarida e Laura, avó e neta que vivem sozinhas. Para garantir o sustento da casa, Margarida lê a mão das pessoas, usando seu dom para conseguir dinheiro e cuidar da menina. A "profissão", ela aprendeu no circo quando era jovem e, sem saber, acabou sendo parte importante do seu sustento futuro. A mãe de Laura desapareceu há muito tempo e nunca mais deu notícias, deixando um vazio que atravessa silenciosamente a vida das duas.

Mesmo diante das dificuldades, Margarida é uma avó dedicada e amorosa. Ela se preocupa com o bem-estar da neta, garante suas caronas para a escola e faz o possível para oferecer uma vida segura e acolhedora. Enquanto isso, Laura vive as descobertas próprias da adolescência, enfrenta os desafios escolares e constrói laços importantes por meio das amizades.

"O cotidiano das pessoas com quem dividimos o teto nos garante que não erramos de vida, que ainda existimos dentro do que somos, que não estamos abandonados ao desconhecido."

Mas a rotina das duas sofre uma grande transformação quando a bisavó Filipa chega para morar com elas. Sua presença altera completamente a dinâmica da casa, e tudo passa a girar em torno da matriarca. A partir desse momento, novos conflitos, segredos e reflexões surgem, revelando ainda mais sobre as relações familiares e sobre as mulheres que compõem essa história.

"os olhos de Filipa, afundados em camadas de pele, já viram coisas demais. Parecem mansos, mas na verdade são olhos de desassosego."

Mais do que uma narrativa sobre gerações, Uma Delicada Coleção de Ausências é um livro sobre vínculos, perdas, sobrevivência e amor. É uma obra que fala sobre aquilo que nos falta, mas também sobre aquilo que nos sustenta quando a vida insiste em nos testar.

"os velhos, tal qual as crianças, precisam ser verificados o tempo todo. Pois a morte é um anjo que os sobrevoa constantemente."

Uma leitura emocionante, sensível e cheia de nuances, que me apresentou uma autora talentosa e dona de uma voz literária marcante. O final é brutal e muita coisa que não estava bem explicada, passa a ter um significado. Triste e real.

Recomendo para quem gosta de histórias familiares, personagens femininas bem construídas e narrativas que tocam o coração sem abrir mão da profundidade.

Boa leitura!

domingo, 13 de setembro de 2026

Os nomes


Florence Knapp
Ed Record - 308 páginas 

"Eu sinto como se tivesse um propósito. E acho que existe certa paz nisso. Saber quem eu sou, o que eu vim fazer nesse mundo." (página 105)

Cora é casada com Gordon e vive num relacionamento abusivo, tanto do ponto de vista psicológico, como físico. Eles tem uma filha, Maia, que tem 9 anos quando nasce o segundo filho. O marido já escolheu o nome da criança: Gordon, igual o nome dele e do pai (avô do menino). Porém, Cora não gosta do nome e teme que ele venha a ser como o pai e aí que começa a história: qual seria o destino do menino a partir da escolha do nome?
Além de Gordon, surgem mais 2 opções: Bear (escolha da irmãzinha) e Julian (escolha de Cora). E a partir daí a autora nos conta 3 versões de vida desta criança, a cada 7 anos, mostrando o que mudou por causa dessa "pequena" decisão.

Agora imagine um homem abusivo, que manda e desmanda, ter sua vontade negada na escolha do nome do filho. Sim, ele age de forma ignorante e comete um assassinato em uma das versões. Não dá pra contar mais sem cair em spoiler, mas já deu pra imaginar o porquê das diferenças nas trajetórias de vida dessa família.

Em todas, porém, o reflexo negativo da atitude desse homem se faz presente e todos sofrem, cada um a sua maneira conforme a realidade que se desenhou em cada versão.

"A cabeça (estava) cheia de arrependimentos, analisando como seus destinos se moveram despercebidos, como placas tectônicas." (pág 189)

"Existe um poder sutil em abandonar a luta." (pág 296)

É um livro com vários gatilhos, que nos permite ter reflexões profundas, mesmo que não tenhamos passado algo semelhante. Porque, no fundo, a gente sabe que conhece alguém como Cora e dói só de pensar na vida que ela leva (ou levou) com pessoas abusivas.

Vale a pena a leitura!

sábado, 22 de agosto de 2026

Teia de Mentiras


Charlie Donlea
Faro editorial - 320 páginas

"Maddie e Ethan eram almas gêmeas, unidas inicialmente por circunstâncias sombrias, mas ligadas para sempre por uma determinação mútua de impedir que as crueldades de um homem ditassem a vida ou a felicidade deles." (página 69)

Essa foi a minha primeira experiência com um livro de Charlie Donlea e gostei muito! Teia de Mentiras é daqueles thrillers que nos envolvem rapidamente e viciam de cara. Os capítulos curtos ajudam bastante nesse ritmo e tornam a leitura bastante fluída.

A história gira em torno do desaparecimento, dez anos antes, de uma jovem jogadora de vôlei muito talentosa e querida (Callie Jones), com um futuro promissor pela frente. O caso, que durante anos permaneceu sem solução, volta a ser investigado a pedido de seu pai, agora governador, que tem influência e meios para ajudar na reabertura das investigações.

Ethan Hall, médico de um pronto-socorro, é escolhido para liderar essa investigação e isso não aconteceu por acaso. Antes de se tornar médico, Ethan foi agente especial da Divisão de Investigação Criminal local, trabalhando justamente na investigação de crimes contra crianças. Uma experiência extremamente pesada, que deixou marcas profundas e fez com que ele abandonasse a profissão. Aos 36 anos, decidiu começar uma nova vida e entrou para a faculdade de Medicina. Aos 45 anos, ele pode dizer que finalmente, encontrou felicidade em sua nova profissão:

“Pela primeira vez em muitos anos, Ethan Hall era um homem feliz.”
(pág. 13)

Mas seu passado não ficaria para trás tão facilmente.

Quando seu antigo parceiro o procura para assumir o caso do desaparecimento, Ethan se vê diante de uma investigação que vai muito além de descobrir o que aconteceu com aquela jovem. Conforme avança, ele precisa encarar antigos traumas e acontecimentos dolorosos de sua própria história — entre eles, o assassinato de seu pai por um serial killer, o mesmo que quase tirou a vida de Maddie, sua atual namorada.

Para encontrar as respostas que procura, Ethan terá que se aproximar desse assassino e interagir com ele, em uma espécie de jogo psicológico que coloca sua própria sanidade à prova. Quanto mais ele se aproxima da verdade, mais precisa lidar com as lembranças que tentou deixar para trás.

E é justamente aí que o livro ganha força: não temos apenas uma investigação sobre um desaparecimento. Temos um protagonista carregando seus próprios fantasmas, tentando resolver um caso enquanto luta para não ser novamente consumido pelo passado.

Charlie Donlea constrói uma trama cheia de perguntas, pistas e reviravoltas, mantendo aquela sensação de “preciso descobrir o que aconteceu!”. 

Foi uma ótima estreia para mim com o autor! Gostei bastante da história, do suspense e, principalmente, da maneira como o passado de Ethan se mistura à investigação.

O final deixa uma brechinha pra uma continuação e espero que ela aconteça em breve!

Então, se você curte thrillers policiais, investigações de casos antigos, personagens marcados por traumas e histórias que prendem a atenção, vale a pena colocar Teia de Mentiras na sua lista de próximas leituras.

Boa leitura!

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Nunca minta


Freida McFadden
Editora Record - 280 páginas

"Nunca minta para seu terapeuta. Ele sabe quando você está mentindo."

Li A Empregada há uns 3 meses e já virei fã da escrita de Freida, que te envolve do começo ao fim com um suspense implacável e, claro, com muitas reviravoltas!

A autora parece ter encontrado a fórmula perfeita para prender o leitor. Quando comecei Nunca Minta, pensei que estava diante de mais um thriller psicológico envolvendo uma casa isolada, um casal e alguns segredos do passado. E, de certa forma, é exatamente isso, mas também é bem mais que isso.

Tricia e Ethan, recém-casados, visitam uma mansão que pretendem comprar. O problema é que uma forte nevasca os impede de ir embora. A casa pertenceu à renomada psiquiatra Adrienne Hale, desaparecida misteriosamente 3 anos antes, e tudo naquele lugar parece guardar respostas que ninguém deveria encontrar.

Enquanto tenta se distrair, Tricia descobre gravações das sessões de terapia da antiga proprietária num cômodo escondido, que ela descobriu por acaso. A cada fita ouvida, um novo detalhe vem à tona, aumentando a tensão e fazendo com que desconfiemos de praticamente todos os personagens.

A narrativa alterna presente e passado, sob a ótica de Tricia e de Adrienne, em capítulos alternados. Cada capítulo, aliás, termina deixando aquela sensação de "só mais um", e quando percebemos já lemos mais que o previsto. É daqueles livros difíceis de largar.

Gostei muito da construção da narrativa: Quando acreditamos ter descoberto toda a verdade, ela muda a direção da história. E depois muda novamente. Confesso que consegui imaginar inúmeras possibilidades, mas o desfecho conseguiu me surpreender.

Se você gosta de thrillers psicológicos, casas cheias de mistérios, segredos bem guardados e finais que mudam completamente nossa percepção da história, Nunca Minta certamente merece um lugar na sua lista de leituras.

Vale muito a pena a leitura!


sábado, 11 de julho de 2026

A morte de Ivan Ilitch


Liev Tolstói (1828-1920)
Ed Princípia - 96 páginas

"...aquela pessoa, que havia experimentado algo agradável, já não existia: era como se a lembrança fosse de outro."

Em 2023, quando estive internada na UTI, vivi momentos de muita reflexão. Entre máquinas, médicos e o esgotamento diante do caos em que me encontrava, muitas perguntas surgiam em minha mente: E se eu tivesse partido? O que realmente importa nessa vida? Eu estava triste e confusa com a situação, mas não me desesperei porque sabia que Deus estava comigo e isso bastava. Essa certeza me deu forças para enfrentar o medo e acreditar que ficaria bem. Após minha experiência de quase morte (EQM), essa confiança se confirmou: eu voltei porque não tinha chegado a minha vez.

Ao ler A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, percebo como a ausência dessa fé torna o sofrimento de Ivan ainda mais agudo. Ele, um homem que viveu buscando status e convenções sociais, se vê diante da morte sem esperança. Sua dor não é apenas física, mas existencial. Ivan sente o vazio de uma vida sem sentido maior, sem transcendência.

“Talvez eu não tenha vivido como deveria?”, veio-lhe de repente à cabeça. “Mas como estaria errado, se eu fazia tudo corretamente?”, disse para si mesmo.

O alívio só vem quando, nos últimos instantes, ele confessa e reconhece a verdade de sua condição, mas é um consolo tardio.

"Assim que veio o sacerdote, ele se confessou e se acalmou, sentiu-se como se estivesse aliviado de suas dúvidas e, consequentemente, de seus sofrimentos, e encontrou um momento de esperança. Tornou a pensar no ceco e na possibilidade de corrigi-lo. Recebeu a comunhão com lágrimas nos olhos."

Enquanto eu encontrava paz na certeza de que Deus me sustentava, Ivan Ilitch enfrentava a solidão de quem não construiu sua vida sobre algo eterno. Essa diferença é marcante: a fé transforma o medo em confiança, enquanto a ausência dela pode transformar a dor em desespero.

Minha passagem pela UTI me ensinou que a vida é frágil, mas também preciosa. E que, diante da morte, o que realmente nos fortalece não são títulos ou conquistas, mas a fé, o amor e a esperança que carregamos dentro de nós. Tolstói nos mostra, através de Ivan, o que acontece quando esses pilares faltam. Minha história, ao contrário, é testemunho de que a fé pode iluminar até os momentos mais sombrios.

Boa leitura!

A Governanta


Samantha Rayes
Ed Jangada - 368 páginas

"Meus filhos não estão aqui. E Mary também não."

Imagine perder tudo em um incêndio e, ao buscar refúgio em uma casa temporária, acreditar que finalmente encontrou paz.

Gina, seu marido Matt e seus 2 filhos pequenos são acolhidos na casa de Annie, amiga de infância de Gina, que agora é famosa e está viajando para o exterior. Como o incêndio destruiu tudo, se viram sem ter aonde ir da noite para o dia e Annie foi super gentil em ceder sua mansão enquanto se reorganizam e tomam as medidas junto ao seguro.

Tudo parecia perfeito, inclusive saber que havia uma governanta, Mary, para ajudá-los nas tarefas do dia a dia. Não que Gina precisasse, mas viu que pelo tamanho da casa ela poderia de fato ajudar Gina, além de ter uma companhia.

Porém, algumas coisas estranhas começam a ocorrer e Gina liga seu sexto sentido, ficando apreensiva com a simples presença da mulher: Mary parece saber mais sobre o passado de Gina do que deveria, aproxima-se de seu marido e exerce uma estranha influência sobre os filhos, especialmente quando um segundo elemento entra na trama. 

Aos poucos, a atmosfera doméstica se torna sufocante, e os segredos guardados há mais de vinte anos vêm à tona de uma forma cruel e avassaladora. Gina percebe que precisa lutar por sua vida e por aqueles que ama.

O livro tem alguns furos e controvérsias, do tipo: que amizade foi a das 4 amigas (BFF´s)? Como não perceberam o que ocorreu com uma delas? Entre outros pontos, mas de qualquer forma, a trama é envolvente e tem um plot twist de tirar o fôlego. A Governanta, aliás, vai bem na linha de A Empregada, que li recentemente.

É um livro que mexe com nossas percepções de confiança, intimidade e segurança dentro do lar.

Vale a pena a leitura!


sábado, 9 de maio de 2026

A cabeça do santo


Socorro Acioli
Companhia das Letras - 174 páginas

"Samuel tinha o poder inexplicável de ouvir os segredos que só Santo Antonio poderia conhecer. Se era por falha do santo, ou engenho do demônio, não se sabe"
(página 43)

Samuel acaba de perder a mãe quando decide cumprir seus últimos desejos: acender três velas aos santos de sua devoção e, enfim, conhecer o pai, Manoel, e a avó Niceia, que viviam em uma pequena vila próxima dali.

É assim que ele parte de Juazeiro do Norte rumo à Candeia, enfrentando sozinho uma caminhada de 16 dias, debaixo de sol quase sem comida e carregando apenas a esperança de encontrar algum acolhimento no destino final.

Quando finalmente chega, exausto, faminto e sem nenhum dinheiro, encontra a casa da avó, mas não o abraço que imaginava. Niceia se recusa a recebê-lo e apenas indica um lugar coberto onde ele poderia se abrigar da chuva que se aproximava. Sem alternativa, Samuel segue as orientações e acaba se instalando ali depois de ser mordido por um cachorro no caminho. O abrigo, porém, é tão inusitado quanto simbólico: a enorme cabeça de Santo Antônio abandonada no meio do mato.

Mas é justamente ali que tudo muda. Samuel descobre possuir um dom curioso: ouvir os pedidos feitos ao santo casamenteiro. E, claro, o que começa como algo estranho logo se transforma em um verdadeiro caos. Não bastava escutar as preces; ele também parecia capaz de ajudar a realizá-las, promovendo casamentos pela região e atraindo uma multidão de fiéis, curiosos e desesperados por milagres.

A trama fantástica e cheia de personagens inusitados é um banquete, que vamos saboreando linha a linha, capítulo a capítulo.

Vale a pena a leitura!