C.S.Lewis (1898-1963)
Martins Fontes - 202 páginas
"Há dois erros semelhantes mas opostos que os seres humanos podem cometer quanto aos demônios. Um é não acreditar em sua existência. O outro é acreditar que eles existem e sentir um interesse excessivo e pouco saudável por eles." (página IX)
Conheci C.S. Lewis na minha adolescência, lendo um dos livros das Crônicas de Nárnia: O leão, a feiticeira e o guarda-roupas e foi paixão à primeira vista. Li e reli várias vezes desde então.
Amigo de J.R.R.Tolkien, esse irlandês foi ateu durante muito tempo até se converter em 1929. A partir daí, escreveu grandes obras, reconhecidas mundialmente, com alegorias cristãs, de forma lúcida, brilhante e bem-humorada.
Essa obra, em especial, seria cômica, se não fosse trágica. Usando de muita ironia, o autor mostra como o diabo usa artimanhas para nos desviar do Caminho: tio Fitafuso é um diabo que escreve cartas para seu sobrinho Vermebile com dicas de como ele deve agir para fazer tropeçar o rapaz de quem é responsável:
"Faça com ele seus pensamentos flutuem (...), esforce-se para alcançar a decepção (...) fortaleça o hábito da irritação mútua (...)" (pág.7)
Procure "solapar a fé e evitar a formação de virtudes" (pág 22).
"...queremos um homem atormentado pelo Futuro..." (pág. 76).
Estimule "o medo apavorante e o excesso de confiança..." (pág.73)
Impossível não se reconhecer em comportamentos indesejados que, sem querer, alimentamos em situações de estresse ou pressão, e justificamos como "exceções", resultantes do cansaço e da vida corrida.
Mas tio Fitafuso tem paciência em desvirtuar seus pupilos e explica isso ao seu sobrinho:
"...o caminho mais rápido para o Inferno é aquele que é gradual..." (pág. 60)
" [faça-o] percorrer toda a vizinhança em busca da igreja que "combina" com ele, até que ele se transforme num degustador, num connoiser de igrejas." (pág. 79)
Se você tem mais explicações para seus "pequenos pecados" do que há algum tempo, pode ser que esteja dando ouvidos aos Vermebiles da vida. Ainda bem que dá tempo de mudar.
Excelente leitura!
Resenhas de livros que li e, de certa forma, gostei. Muito ou pouco. Não tenho o objetivo de comparar escolas literárias, estilos, datas, épocas... Leitura pra mim é diversão e divulgo o lado alegre, poético, lúdico, desafiador de cada livro. Boa viagem!
sábado, 28 de setembro de 2013
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Trilogia da Paixão
Johann W. Goethe (1749-1832)
L&PM Pocket - 139 páginas
"Quão ligeiro a bater de asas do dia,
Parecendo os minutos a empurrar!
Fiel selar da noite, um beijo iria
No sol vindouro assim querer ficar.
As horas transcorriam tão normais
E meigas como irmãs, mas nunca iguais"
(Página 15, in Elegia)
A trilogia é composta por "A Werther" (escrita sob encomenda para celebrar o cinquentenário de Os sofrimentos do jovem Werther), "Elegia" (escrita em setembro de 1823 para Ulrike de 17 anos, tendo o poeta 74) e por "Reconciliação (escrita em agosto de 1823 para a pianista polonesa Maria Szymanovska).
Das 3, "Elegia" é a mais conhecida e perfeita: tem 23 estrofes de 6 versos com estrutura coesa e é, segundo Leonardo Fróes, "um dos espasmos mais trágicos da poesia confessional de Goethe" (página 35). A poesia foi escrita após a jovem Ulrike recusar seu pedido de casamento : nela, Goethe exalta a beleza da amada, compara seus sentimentos com a grandeza da natureza, relembra a doçura dos beijos (reais?) trocados:
"Como por mim à porta ela aguardava
E felizardo aos poucos me fazia,
Após o último beijo me alcançava
E ainda mais um nos lábios imprimia,
Assim, movente e clara, e efígie amada
No coração a fogo está gravada" (página 19)
E chora:
"Só me resta um remédio, o choro infindo." (Página 23)
Trata-se de uma edição bilíngue, com comentários de Leonardo Fróes.
Recomendo a leitura!
L&PM Pocket - 139 páginas
"Quão ligeiro a bater de asas do dia,
Parecendo os minutos a empurrar!
Fiel selar da noite, um beijo iria
No sol vindouro assim querer ficar.
As horas transcorriam tão normais
E meigas como irmãs, mas nunca iguais"
(Página 15, in Elegia)
A trilogia é composta por "A Werther" (escrita sob encomenda para celebrar o cinquentenário de Os sofrimentos do jovem Werther), "Elegia" (escrita em setembro de 1823 para Ulrike de 17 anos, tendo o poeta 74) e por "Reconciliação (escrita em agosto de 1823 para a pianista polonesa Maria Szymanovska).
Das 3, "Elegia" é a mais conhecida e perfeita: tem 23 estrofes de 6 versos com estrutura coesa e é, segundo Leonardo Fróes, "um dos espasmos mais trágicos da poesia confessional de Goethe" (página 35). A poesia foi escrita após a jovem Ulrike recusar seu pedido de casamento : nela, Goethe exalta a beleza da amada, compara seus sentimentos com a grandeza da natureza, relembra a doçura dos beijos (reais?) trocados:
"Como por mim à porta ela aguardava
E felizardo aos poucos me fazia,
Após o último beijo me alcançava
E ainda mais um nos lábios imprimia,
Assim, movente e clara, e efígie amada
No coração a fogo está gravada" (página 19)
E chora:
"Só me resta um remédio, o choro infindo." (Página 23)
Trata-se de uma edição bilíngue, com comentários de Leonardo Fróes.
Recomendo a leitura!
domingo, 8 de setembro de 2013
Sonetos para amar o amor
Luís Vaz de Camões (1524-1580)
L&PM Pocket - 82 páginas
"Se nela está minha alma transformada
Que mais deseja o corpo alcançar?" (página 16)
Quando estava no colegial, meu professor de literatura nos fez decorar os primeiros versos dos Lusíadas (*) e peguei certa birra por Camões.
Mas essa birra passou ao conhecer o famoso soneto:
"Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É um ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos mortais corações conformidade,
Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?" (pág 53)
Nos diversos sonetos selecionados para esta obra, Camões canta o amor e suas impossibilidades; a proximidade e a distância.
"De amor escrevo, de amor trato e vivo;
De amor me nasce amar sem ser amado (...)" (pág 71)
Canta também a dor: ele perdeu sua amada Dinamene em um naufrágio e fez um soneto comovente para ela.
Vale a pena a leitura!
(*)
L&PM Pocket - 82 páginas
"Se nela está minha alma transformada
Que mais deseja o corpo alcançar?" (página 16)
Quando estava no colegial, meu professor de literatura nos fez decorar os primeiros versos dos Lusíadas (*) e peguei certa birra por Camões.
Mas essa birra passou ao conhecer o famoso soneto:
"Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É um ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos mortais corações conformidade,
Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?" (pág 53)
Nos diversos sonetos selecionados para esta obra, Camões canta o amor e suas impossibilidades; a proximidade e a distância.
"De amor escrevo, de amor trato e vivo;
De amor me nasce amar sem ser amado (...)" (pág 71)
Canta também a dor: ele perdeu sua amada Dinamene em um naufrágio e fez um soneto comovente para ela.
Vale a pena a leitura!
(*)
Os Lusíadas (1572)
Canto I, 1-2
Obs: e ainda sei tudo isso de cor até hoje!
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Primeiro Amor
Ivan Turguêniev (1818 - 1883)
L&PM Pocket - 102 páginas
"...eu desfrutava tanto a minha inesperada felicidade que começava até a sentir medo (...) Parecia-me que já não poderia pedir mais nada ao destino..." (página 61)
Impossível não se reconhecer nos sentimentos e temores do jovem Vladimir Petróvitch, de 16 anos, que se vê apaixonado pela primeira vez por sua vizinha, Zinaída Alexándrovna, de 21, filha de uma velha princesa decadente.
"Meu coração palpitava aos pulos; eu estava envergonhado e alegre: sentia uma perturbação inédita."
Como era muito bonita, a jovem atraía vários pretendentes e fazia joguinhos
para atrai-los. Aquele que ganhasse, podia beijar suas mãos ou receber algum outro tipo de recompensa.
Zinaída via Vladimir como um garoto, mas falava que o amava. Ele, por sua vez, não entendia bem o porquê daquele tipo de comportamento, mas se contentava em estar sempre por perto, mesmo que fosse disputando sua atenção.
Um dia, ele percebe que ela mudou: estaria finalmente apaixonada? Mas, por quem?
Não podemos comparar Turguêniev com seus conterrâneos Tolstói e Destoiévski (aliás, seus desafetos e meus autores favoritos), mas vale a pena conhecer essa obra. O final vale cada lágrima que você vai derramar.
Boa leitura!
L&PM Pocket - 102 páginas
"...eu desfrutava tanto a minha inesperada felicidade que começava até a sentir medo (...) Parecia-me que já não poderia pedir mais nada ao destino..." (página 61)
Impossível não se reconhecer nos sentimentos e temores do jovem Vladimir Petróvitch, de 16 anos, que se vê apaixonado pela primeira vez por sua vizinha, Zinaída Alexándrovna, de 21, filha de uma velha princesa decadente.
"Meu coração palpitava aos pulos; eu estava envergonhado e alegre: sentia uma perturbação inédita."
Como era muito bonita, a jovem atraía vários pretendentes e fazia joguinhos
para atrai-los. Aquele que ganhasse, podia beijar suas mãos ou receber algum outro tipo de recompensa.
Zinaída via Vladimir como um garoto, mas falava que o amava. Ele, por sua vez, não entendia bem o porquê daquele tipo de comportamento, mas se contentava em estar sempre por perto, mesmo que fosse disputando sua atenção.
Um dia, ele percebe que ela mudou: estaria finalmente apaixonada? Mas, por quem?
Não podemos comparar Turguêniev com seus conterrâneos Tolstói e Destoiévski (aliás, seus desafetos e meus autores favoritos), mas vale a pena conhecer essa obra. O final vale cada lágrima que você vai derramar.
Boa leitura!
domingo, 25 de agosto de 2013
Cartas portuguesas
Mariana Alcoforado (1640-1723)
L&PM Pocket - 72 páginas
"...chego até a prezar as desgraças de que és a única causa: dediquei-te minha vida assim que te vi e sinto algum prazer sacrificando-a a ti." (página 16)
Publicadas em Paris, em 1669, com autoria desconhecida, as 5 cartas desse livro foram escritas por uma freira portuguesa ao seu grande amor, um oficial do exército francês(*).
As cartas comovem pelo desespero, pela entrega total e sem medida, pela dor, pelo amor incondicional:
" A tua ausência rigorosa, e talvez eterna, em nada diminui a veemência do meu amor..." (2ª carta)
O silêncio do seu amado a machuca e, a cada carta, a dor fica mais evidente:
"Eu não sei nem o que sou, nem o que faço, nem o que desejo: encontro-me dilacerada por mil movimentos contraditórios..." (3ª carta).
É para ler e sofrer com a pobre freirinha.
Boa leitura!
(*) Apenas em 1810, a autoria foi atribuída à sóror Mariana Alcoforado, do convento da Nossa Sra da Conceição (Beja, Portugal).
L&PM Pocket - 72 páginas
"...chego até a prezar as desgraças de que és a única causa: dediquei-te minha vida assim que te vi e sinto algum prazer sacrificando-a a ti." (página 16)
Publicadas em Paris, em 1669, com autoria desconhecida, as 5 cartas desse livro foram escritas por uma freira portuguesa ao seu grande amor, um oficial do exército francês(*).
As cartas comovem pelo desespero, pela entrega total e sem medida, pela dor, pelo amor incondicional:
" A tua ausência rigorosa, e talvez eterna, em nada diminui a veemência do meu amor..." (2ª carta)
O silêncio do seu amado a machuca e, a cada carta, a dor fica mais evidente:
"Eu não sei nem o que sou, nem o que faço, nem o que desejo: encontro-me dilacerada por mil movimentos contraditórios..." (3ª carta).
É para ler e sofrer com a pobre freirinha.
Boa leitura!
(*) Apenas em 1810, a autoria foi atribuída à sóror Mariana Alcoforado, do convento da Nossa Sra da Conceição (Beja, Portugal).
sábado, 24 de agosto de 2013
Cem sonetos de amor
Pablo Neruda (1904-1973)
L&PM Pocket - 124 páginas
"Te amei sem que eu o soubesse, e busquei tua memória..." (Soneto XXII - página 30)
Impossível amar poesia e não conhecer o poeta chileno Pablo Neruda.
Essa obra é dedicada à sua terceira esposa, Matilde, e é repleta de lirismo, paixão, dor e, claro, muito amor:
"Amo o pedaço de terra que tu és..." (trecho do soneto XVI- pág 24)
"Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava (...)
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio (...)"
(trecho do soneto XXV- pág 33)
"Tu és o pão de cada dia para minha alma..."
(trecho do soneto LXXVII- pág 90)
Poesia pura para os apaixonados: leitura obrigatória!
Obs: Se quiser conhecer um pouco mais da vida desse grande poeta, leia a autobiografia "Confesso que vivi".
Mas fica um alerta: você vai se emocionar. E muito!
L&PM Pocket - 124 páginas
"Te amei sem que eu o soubesse, e busquei tua memória..." (Soneto XXII - página 30)
Impossível amar poesia e não conhecer o poeta chileno Pablo Neruda.
Essa obra é dedicada à sua terceira esposa, Matilde, e é repleta de lirismo, paixão, dor e, claro, muito amor:
"Amo o pedaço de terra que tu és..." (trecho do soneto XVI- pág 24)
"Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava (...)
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio (...)"
(trecho do soneto XXV- pág 33)
"Tu és o pão de cada dia para minha alma..."
(trecho do soneto LXXVII- pág 90)
Poesia pura para os apaixonados: leitura obrigatória!
Obs: Se quiser conhecer um pouco mais da vida desse grande poeta, leia a autobiografia "Confesso que vivi".
Mas fica um alerta: você vai se emocionar. E muito!
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Toda Poesia
![]() |
Companhia das Letras - 421 páginas
"Uma vida é curta
para mais de um sonho." (página 15)
O curitibano Paulo Leminski se equilibrou entre a poesia concreta, formal e a lírica, prosaica.
Toda Poesia é uma coletânea de suas obras: Distraídos venceremos, La vie em close, Quarenta clics em Curitiba, Caprichos & relaxos, além de poemas esparsos.
O poeta, claro, fala de amor:
"basta um instante
e você tem amor bastante" (pág 295)
" a noite-enorme
tudo dorme
menos teu nome" (pág 317)
Fala de segredos:
"ler se lê nos dedos
não nos olhos
que olhos são mais dados
a segredos." (pág 342)
Evoca os céus, a noite, as estrelas:
"a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa" (pág 91)
"só uma nuvem
te separa
das estrelas" (pág 93)
O poeta clama pela eternidade...
"abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno." (pág 235)
...e resiste ao tempo:
"na rua
sem resistir
me chamam
torno a existir" (pág 117)
O poeta cria, comove, espanta, provoca.
Leia essas poesias inteiras: "Rumo ao Sumo" (minha preferida), "Bem no fundo", "Além alma" e "O que passou passou?" e evite suspirar.
Impossível, né?
Leitura mais-que-recomendada!
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