Chimamanda Ngozi Adichie
Companhia das Letras - 234 páginas
"Havia emoções que Kamara queria segurar na palma da mão, mas que simplesmente não existiam mais..." (página 95)
Ano passado me emocionei com Americanah, livro de Chimamanda, que me cativou logo de cara. Agora, com a leitura dos 12 contos dessa obra não foi diferente: cada um carrega um pedacinho da Ifemelu de Americanah, mas de uma forma diferente, ampliada.
A vida nos Estados Unidos, vista como um sonho de consumo e de progresso para muitos nigerianos, aparece em alguns contos. Temos a esposa que mora no exterior, enquanto o marido passa alguns meses na Nigéria (em "Réplica"). A mudança foi feita para dar um futuro aos filhos, mas ao tomar conhecimento de uma possível traição do marido, Nkem revê sua vida e precisa tomar uma decisão. Temos também Kamara (em "Na segunda-feira da semana passada"), uma jovem babá que cuida de um menino de 7 anos, enquanto o pai trabalha fora e a mãe fica trancada no porão se dedicando às suas pinturas. E temos também (em "No seu pescoço") uma jovem que vai morar na casa do tio nos EUA e lá sente na pele a dor de se sentir estrangeira e sozinha, numa terra que a sufoca e a olha de forma diferente.
Em "Jumping Monkey Hill" temos um workshop de escritores africanos na Cidade do Cabo, o qual reúne grandes talentos. Nesse encontro, todos são estimulados a criar textos, os quais são compartilhados com o grupo.
Ujunwa é a nigeriana de Lagos, que cria uma história sobre uma moça que procura emprego e tem dificuldade de conseguir algo sem sofrer algum tipo de assédio. O organizador do encontro, que a havia assediado ao pegá-la no aeroporto, ri e diz: "Nunca é exatamente na vida real, não é? As mulheres nunca são vítimas dessa maneira tão grosseira, e certamente não na Nigéria." Ah, como não? Ujunwa reage de uma forma surpreendente e nos deixa com um nó na garganta.
"A Cela Um" se passa na Nigéria e fala da prisão de um jovem que cometeu pequenas infrações desde a adolescência e sempre teve a família ao seu lado, fazendo vistas grossas e arranjando desculpas para camuflar o problema. Um dia, porém, ele é pego em flagrante e vai parar numa prisão em outra cidade, sacrificando a vida dos pais e da irmã nas visitas diárias. Apesar da situação toda, ele estava bem, pois comia a comida da mãe e porque não estava na temida cela um. Até que algo acontece e é impossível você não sofrer junto, como se fizesse parte daquela família.
Cada conto é assim: simples na aparência e rico na essência. A dor do personagem passa a ser a sua, numa simbiose de sentimentos. Dá vontade de dar colo para alguns, enxugar as lágrimas e dizer "tá tudo bem. Você merece e terá algo melhor."
Vale a pena a leitura de cada um!
Resenhas de livros que li e, de certa forma, gostei. Muito ou pouco. Não tenho o objetivo de comparar escolas literárias, estilos, datas, épocas... Leitura pra mim é diversão e divulgo o lado alegre, poético, lúdico, desafiador de cada livro. Boa viagem!
quarta-feira, 14 de março de 2018
sábado, 17 de fevereiro de 2018
Mulheres de Cinzas: as areias do imperador - vol 1
Mia Couto
Companhia das Letras - 344 páginas
"Mas a Paz é uma sombra em chão de miséria; basta o acontecer do Tempo para que desapareça." (página 21)
Emendei um Mia no outro: há 1 mês li Cada homem é uma raça e agora devorei o volume 1 da trilogia "As areias do imperador".
Aqui temos os conflitos raciais e culturais entre portugueses e africanos, no vilarejo de Nkokolani, que vivia amedrontado pela constante ameaça de Ngungunyane, o temido líder e imperador do sul de Moçambique.
Em fins do século XIX, o sargento português Germano de Melo foi enviado a este vilarejo para evitar a expansão dos domínios de Ngungunyane. Tão logo ele chega, conhece a jovem Imani, de apenas quinze anos, que será sua intérprete nesse novo mundo. Ela mora com os pais e tem 2 irmãos: Dubula se aliou ao inimigo e Mwanatu - o tonto e atrasado - aos portugueses.
Os capítulos são intercalados: ora temos os relatos de Imani, ora lemos as cartas que Germano escreve para o Conselheiro José d´Almeida, em Portugal, relatando suas dificuldades, dúvidas e temores.
Conflitos na família (entre tio e pai, entre irmãos, entre marido e mulher) dão o tom da trama, a qual é permeada pelo medo dos invasores e os mistérios e encantos da natureza.
As guerras e as perdas desumanizam a todos que são atingidos e deixam sempre algum tipo de marca. Seja na pessoa, seja na terra onde vivem.
"É para isso que servem as fardas: para afastar o soldado da sua humanidade." (pág.20)
"...bebíamos para fugir de um lugar. E tornávamo-nos bêbados porque não sabíamos fugir de nós mesmos." (pág.42)
"...as guerras nunca começam. Quando damos por elas, já havia muito que vinham acontecendo." (pág.142)
"... não são os mortos que pesam. São os que não param nunca de morrer." (pág.283)
Como sempre, vale a pena ler Mia Couto.
Boa leitura!
Obs: leia também as resenhas que escrevi para outras obras desse grande autor moçambicano: Terra Sonâmbula, Antes de nascer o mundo, A varanda do frangipani, O outro pé da sereia,Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, O último voo do flamingo
Companhia das Letras - 344 páginas
"Mas a Paz é uma sombra em chão de miséria; basta o acontecer do Tempo para que desapareça." (página 21)
Emendei um Mia no outro: há 1 mês li Cada homem é uma raça e agora devorei o volume 1 da trilogia "As areias do imperador".
Aqui temos os conflitos raciais e culturais entre portugueses e africanos, no vilarejo de Nkokolani, que vivia amedrontado pela constante ameaça de Ngungunyane, o temido líder e imperador do sul de Moçambique.
Em fins do século XIX, o sargento português Germano de Melo foi enviado a este vilarejo para evitar a expansão dos domínios de Ngungunyane. Tão logo ele chega, conhece a jovem Imani, de apenas quinze anos, que será sua intérprete nesse novo mundo. Ela mora com os pais e tem 2 irmãos: Dubula se aliou ao inimigo e Mwanatu - o tonto e atrasado - aos portugueses.
Os capítulos são intercalados: ora temos os relatos de Imani, ora lemos as cartas que Germano escreve para o Conselheiro José d´Almeida, em Portugal, relatando suas dificuldades, dúvidas e temores.
Conflitos na família (entre tio e pai, entre irmãos, entre marido e mulher) dão o tom da trama, a qual é permeada pelo medo dos invasores e os mistérios e encantos da natureza.
As guerras e as perdas desumanizam a todos que são atingidos e deixam sempre algum tipo de marca. Seja na pessoa, seja na terra onde vivem.
"É para isso que servem as fardas: para afastar o soldado da sua humanidade." (pág.20)
"...bebíamos para fugir de um lugar. E tornávamo-nos bêbados porque não sabíamos fugir de nós mesmos." (pág.42)
"...as guerras nunca começam. Quando damos por elas, já havia muito que vinham acontecendo." (pág.142)
"... não são os mortos que pesam. São os que não param nunca de morrer." (pág.283)
Como sempre, vale a pena ler Mia Couto.
Boa leitura!
Obs: leia também as resenhas que escrevi para outras obras desse grande autor moçambicano: Terra Sonâmbula, Antes de nascer o mundo, A varanda do frangipani, O outro pé da sereia,Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, O último voo do flamingo
sábado, 13 de janeiro de 2018
Cada homem é uma raça
Mia Couto
Companhia das Letras - 200 páginas
"Foi essa instrução que ele me deu: lições de esperança quando já havia desfalecido o futuro." (página 30)
Esse é meu décimo livro do Mia Couto e, ainda não me cansei de me encantar com a melodia das suas palavras. Nesta obra, que possui 11 contos, não foi diferente.
Tristeza, perda, dor, mistério, culpa, morte são elementos presentes nesses contos, os quais aparecem sempre de uma forma sublime, terna:
"Se desfez das lágrimas, para que outra coisa serve o verso das mãos?" (pág.15)
"... quando desembrulho minhas lembranças eu aprendo meus muitos idiomas. Nem assim me entendo..." (pág.29)
Os personagens são pequenos universos, que transbordam em suas particularidades: uma mulher corcunda que se dedica a cuidar de estátuas, uma viúva que passou a amar o marido de fato depois de morto, um vendedor de pássaros que desperta sentimentos por onde passa, um pescador cego e sua luta pra sobreviver, um barbeiro que atende debaixo de uma grande árvore e é vítima de uma brincadeira. Esses são só alguns, mas já dá para se ter uma ideia da fantasia e da magia que cercam cada um.
Para Mia, a vida sempre tem algo a nos revelar:
"Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos." (pág.97)
"(...) os olhos, janelas onde nossa alma se acende." (pág. 100)
"... acordar não é a simples passagem do sono para a vigília. É mais, um lentíssimo envelhecimento, cada despertar somando o cansaço da inteira humanidade. (...) a vida, ela toda, é um extenso nascimento." (pág. 129)
Vale a pena a leitura!
Obs: veja também a resenha de outras obras que li do Mia e amei!
Terra Sonâmbula, Antes de nascer o mundo, A varanda do frangipani, O outro pé da sereia, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, O último voo do flamingo
Companhia das Letras - 200 páginas
"Foi essa instrução que ele me deu: lições de esperança quando já havia desfalecido o futuro." (página 30)
Esse é meu décimo livro do Mia Couto e, ainda não me cansei de me encantar com a melodia das suas palavras. Nesta obra, que possui 11 contos, não foi diferente.
Tristeza, perda, dor, mistério, culpa, morte são elementos presentes nesses contos, os quais aparecem sempre de uma forma sublime, terna:
"Se desfez das lágrimas, para que outra coisa serve o verso das mãos?" (pág.15)
"... quando desembrulho minhas lembranças eu aprendo meus muitos idiomas. Nem assim me entendo..." (pág.29)
Os personagens são pequenos universos, que transbordam em suas particularidades: uma mulher corcunda que se dedica a cuidar de estátuas, uma viúva que passou a amar o marido de fato depois de morto, um vendedor de pássaros que desperta sentimentos por onde passa, um pescador cego e sua luta pra sobreviver, um barbeiro que atende debaixo de uma grande árvore e é vítima de uma brincadeira. Esses são só alguns, mas já dá para se ter uma ideia da fantasia e da magia que cercam cada um.
Para Mia, a vida sempre tem algo a nos revelar:
"Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos." (pág.97)
"(...) os olhos, janelas onde nossa alma se acende." (pág. 100)
"... acordar não é a simples passagem do sono para a vigília. É mais, um lentíssimo envelhecimento, cada despertar somando o cansaço da inteira humanidade. (...) a vida, ela toda, é um extenso nascimento." (pág. 129)
Vale a pena a leitura!
Obs: veja também a resenha de outras obras que li do Mia e amei!
Terra Sonâmbula, Antes de nascer o mundo, A varanda do frangipani, O outro pé da sereia, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, O último voo do flamingo
domingo, 31 de dezembro de 2017
Medo líquido
Zygmunt Bauman (1925-2017)
Zahar - 240 páginas
"O medo é mais assustador quando difuso, disperso, indistinto, desvinculado, desancorado, flutuante, sem endereço nem motivo claros. (...)
'Medo' é o nome que damos a nossa incerteza: nossa ignorância de ameaça e do que deve ser feito - do que pode e do que não pode - para fazê-la parar ou enfrentá-la, se cessá-la estiver além do nosso alcance." (página 8)
Li Bauman há cerca de 8 meses (Amor líquido) e logo de cara vi que aquele não seria o único livro dele que leria pois, de uma forma lúcida, ele consegue fazer um retrato de nossa sociedade pós-moderna, sem rodeios, nem enrolação.
Nessa obra, o tema é o medo que permeia nossa vida diária, apesar de toda suposta segurança que usufruímos nesse século. O livro foi lançado em 2006 e o autor aproveitou para discorrer de temas recentes (o desastre do Katrina em 2005, o ataque das torres gêmeas em 2001 e outros eventos terroristas da época) para mostrar como estamos cercados pelo medo e pela ansiedade.
"As oportunidades de ter medo estão entre as poucas coisas que não se encontram em falta nessa nossa época, altamente carente em matéria de certeza, segurança e proteção." (pág. 31)
A morte, então, apesar de ser uma certeza na vida da humanidade, torna-se algo que nos assombra diariamente pois pode vir de onde menos se espera. E mesmo que se espere, não há muito o que fazer para evitar. Quais foram as maiores vítimas do Katrina: pobres x ricos, brancos x negros?
Além dos eventos "naturais", a morte surge quando se mata em nome de uma ideologia, de uma religião, de um líder. Vimos que na 2a Guerra Mundial muitos mataram porque a ordem veio de um superior/chefe/líder:
"Com a ajuda de seus cultos advogados, Eichmann tentou convencer o tribunal de que, já que seu único motivo era o trabalho bem-feito (ou seja, capaz de satisfazer seus superiores), este não se relacionava com a natureza e o destino dos objetos de suas ações. (...) deixaram implícito que a morte de aproximadamente seis milhões de seres humanos foi apenas um efeito colateral." (pág 81)
Mas como enxergamos a morte, no âmbito pessoal, quando atinge alguém muito próximo?
"Cada morte é a perda de um mundo - uma perda definitiva, irreversível e irreparável. " (pág. 60)
E ele cita Freud: "Colapso total quando a morte atinge alguém a quem amamos (...) Nossas esperanças, desejos e prazeres jazem na tumba com ele, não nos consolaremos, nem preencheremos o lugar daquele que perdemos." (pág. 61)
Então, num mundo assim, seria de se esperar que as pessoa se unissem em compaixão, certo? Mas na prática não é bem isso que acontece...
"Na sociedade líquido-moderna dos consumidores, cada membro individual é instruído, treinado e preparado para buscar a felicidade individual por meios e esforços individuais. O que mais possa significar a felicidade, ela sempre quis dizer ser livre das inconveniências." (pág. 68)
"Exortados, instados e pressionados diariamente a perseguirem seus próprios interesses e satisfações, e a só se preocuparem com os interesses e satisfações dos outros na medida em que afetem os seus, os indivíduos modernos acreditam que os outros à sua volta são guiados por motivos igualmente egoístas - e portanto não podem esperar deles uma compaixão e uma solidariedade mais desinteressadas do que eles próprios são aconselhados, treinados e dispostos a oferecer." (pág. 172)
O autor exagerou? Infelizmente acho que não...
Vivemos num mundo corrompido, doente e decadente e, se não tivermos fé em Deus (mesmo que seja do tamanho de um grão de mostarda), dificilmente teremos serenidade e paz para vivermos os dias que nos restam debaixo do sol.
Boa leitura!
Zahar - 240 páginas
"O medo é mais assustador quando difuso, disperso, indistinto, desvinculado, desancorado, flutuante, sem endereço nem motivo claros. (...)
'Medo' é o nome que damos a nossa incerteza: nossa ignorância de ameaça e do que deve ser feito - do que pode e do que não pode - para fazê-la parar ou enfrentá-la, se cessá-la estiver além do nosso alcance." (página 8)
Li Bauman há cerca de 8 meses (Amor líquido) e logo de cara vi que aquele não seria o único livro dele que leria pois, de uma forma lúcida, ele consegue fazer um retrato de nossa sociedade pós-moderna, sem rodeios, nem enrolação.
Nessa obra, o tema é o medo que permeia nossa vida diária, apesar de toda suposta segurança que usufruímos nesse século. O livro foi lançado em 2006 e o autor aproveitou para discorrer de temas recentes (o desastre do Katrina em 2005, o ataque das torres gêmeas em 2001 e outros eventos terroristas da época) para mostrar como estamos cercados pelo medo e pela ansiedade.
"As oportunidades de ter medo estão entre as poucas coisas que não se encontram em falta nessa nossa época, altamente carente em matéria de certeza, segurança e proteção." (pág. 31)
A morte, então, apesar de ser uma certeza na vida da humanidade, torna-se algo que nos assombra diariamente pois pode vir de onde menos se espera. E mesmo que se espere, não há muito o que fazer para evitar. Quais foram as maiores vítimas do Katrina: pobres x ricos, brancos x negros?
Além dos eventos "naturais", a morte surge quando se mata em nome de uma ideologia, de uma religião, de um líder. Vimos que na 2a Guerra Mundial muitos mataram porque a ordem veio de um superior/chefe/líder:
"Com a ajuda de seus cultos advogados, Eichmann tentou convencer o tribunal de que, já que seu único motivo era o trabalho bem-feito (ou seja, capaz de satisfazer seus superiores), este não se relacionava com a natureza e o destino dos objetos de suas ações. (...) deixaram implícito que a morte de aproximadamente seis milhões de seres humanos foi apenas um efeito colateral." (pág 81)
Mas como enxergamos a morte, no âmbito pessoal, quando atinge alguém muito próximo?
"Cada morte é a perda de um mundo - uma perda definitiva, irreversível e irreparável. " (pág. 60)
E ele cita Freud: "Colapso total quando a morte atinge alguém a quem amamos (...) Nossas esperanças, desejos e prazeres jazem na tumba com ele, não nos consolaremos, nem preencheremos o lugar daquele que perdemos." (pág. 61)
Então, num mundo assim, seria de se esperar que as pessoa se unissem em compaixão, certo? Mas na prática não é bem isso que acontece...
"Na sociedade líquido-moderna dos consumidores, cada membro individual é instruído, treinado e preparado para buscar a felicidade individual por meios e esforços individuais. O que mais possa significar a felicidade, ela sempre quis dizer ser livre das inconveniências." (pág. 68)
"Exortados, instados e pressionados diariamente a perseguirem seus próprios interesses e satisfações, e a só se preocuparem com os interesses e satisfações dos outros na medida em que afetem os seus, os indivíduos modernos acreditam que os outros à sua volta são guiados por motivos igualmente egoístas - e portanto não podem esperar deles uma compaixão e uma solidariedade mais desinteressadas do que eles próprios são aconselhados, treinados e dispostos a oferecer." (pág. 172)
O autor exagerou? Infelizmente acho que não...
Vivemos num mundo corrompido, doente e decadente e, se não tivermos fé em Deus (mesmo que seja do tamanho de um grão de mostarda), dificilmente teremos serenidade e paz para vivermos os dias que nos restam debaixo do sol.
Boa leitura!
terça-feira, 28 de novembro de 2017
Polícia Federal: a lei é para todos
Carlos Graieb e Ana Maria Santos
Ed Record - 280 páginas
"Até ali (março de 2016), os números da Lava Jato realmente impressionavam: vinte e oito fases deflagradas; 2,9 bilhões de reais devolvidos aos cofres públicos; 2,4 bilhões de reais ainda bloqueados; 179 réus, 93 condenações criminais; 990 anos de penas somadas." (página 265)
Desde março de 2014 não há um dia sequer nesse país, que não apareça alguma reportagem na TV sobre a Lava Jato. O que começou numa investigação de evasão de divisas e lavagem de dinheiro, se tornou algo surpreendente. Os 4 doleiros suspeitos eram peixe pequeno. O fio foi puxado - imagine um doleiro presentear um executivo da Petrobras com um Land Rover avaliado em 250 mil reais - e uma rede bem articulada de propinas surgiu. Não só na Petrobras, mas na Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, Mendes Júnior, UTC, entre outras. Daí para se chegar à esfera política foi rápido. Planilhas e programas de gerenciamento de propinas foram descobertos e os desvios não foram poucos, nem pequenos. Todo mundo queria levar seus milhõezinhos na engrenagem montada.
A obra conta tudo isso que já ouvimos, de uma forma leve, sob a ótica dos policiais federais envolvidos. Como eram as investigações? E as abordagens? Como conseguiram localizar tanta gente em diversas partes do país e do mundo a partir de Curitiba? Quais foram os contratempos, as dificuldades?
A leitura desse "romance político-policial" nos traz algumas respostas, mas também nos faz refletir sobre outras coisas. Hoje já estamos na 47ª fase da Lava Jato e muita coisa ainda está por vir. Será que um dia acabaremos com a corrupção em nosso país? Conseguiremos criar um mecanismo tão eficaz anti-corrupção como a que existiu/existe para promovê-la? Há esperança nas eleições de 2018 ou são todas cartas marcadas?
Boa leitura!
Ed Record - 280 páginas
"Até ali (março de 2016), os números da Lava Jato realmente impressionavam: vinte e oito fases deflagradas; 2,9 bilhões de reais devolvidos aos cofres públicos; 2,4 bilhões de reais ainda bloqueados; 179 réus, 93 condenações criminais; 990 anos de penas somadas." (página 265)
Desde março de 2014 não há um dia sequer nesse país, que não apareça alguma reportagem na TV sobre a Lava Jato. O que começou numa investigação de evasão de divisas e lavagem de dinheiro, se tornou algo surpreendente. Os 4 doleiros suspeitos eram peixe pequeno. O fio foi puxado - imagine um doleiro presentear um executivo da Petrobras com um Land Rover avaliado em 250 mil reais - e uma rede bem articulada de propinas surgiu. Não só na Petrobras, mas na Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, Mendes Júnior, UTC, entre outras. Daí para se chegar à esfera política foi rápido. Planilhas e programas de gerenciamento de propinas foram descobertos e os desvios não foram poucos, nem pequenos. Todo mundo queria levar seus milhõezinhos na engrenagem montada.
A obra conta tudo isso que já ouvimos, de uma forma leve, sob a ótica dos policiais federais envolvidos. Como eram as investigações? E as abordagens? Como conseguiram localizar tanta gente em diversas partes do país e do mundo a partir de Curitiba? Quais foram os contratempos, as dificuldades?
A leitura desse "romance político-policial" nos traz algumas respostas, mas também nos faz refletir sobre outras coisas. Hoje já estamos na 47ª fase da Lava Jato e muita coisa ainda está por vir. Será que um dia acabaremos com a corrupção em nosso país? Conseguiremos criar um mecanismo tão eficaz anti-corrupção como a que existiu/existe para promovê-la? Há esperança nas eleições de 2018 ou são todas cartas marcadas?
Boa leitura!
Dedicatória da autora
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
A menina que não sabia ler - vol 2
John Harding
LeYa - 288 páginas
"Aparências, aparências! Como é fácil julgar que é louco um homem são e que é são um louco!" (página 52)
Apesar de não parecer, esse livro é continuação do anterior. Depois daquele final absurdo, ficamos sem saber o destino de alguns personagens. Longe de explicar o que aconteceu, temos um deles de volta: Florence, agora com o nome de Jane Pomba, já que ela não se lembra de seu nome e nem de onde veio.
Jane está em um hospício numa ilha, com diversas mulheres. O tratamento que o dr Morgan faz com elas é desumano: banhos gelados, restrição alimentar e horas presas em cadeiras de "contenção", tudo para ensiná-las a se comportar.
É assim que o dr John Shepherd chega na ilha, para seu novo emprego como assistente do dr Morgan. John, aliás, roubou essa identidade de outra pessoa em um acidente de trem e, por sorte, se viu livre de seu triste destino para recomeçar a vida nesse lugar distante. Por isso, ele chega de mala e cuia no local, sem despertar suspeitas.
John se assusta com o tratamento dado às mulheres e pede ao dr Morgan para usar um tratamento mais humano com uma das pacientes. Ele aceita e a escolhida é Jane Pomba, uma jovem que mal sabe falar e não recorda nada sua vida, nem seu nome.
O tratamento começa e algumas coisas acontecem ao redor de John, que o deixa sempre alerta: será que desconfiam de alguma coisa acerca dele? E se alguém descobre que ele não é o dr John verdadeiro?
Todos parecem esconder algum segredo e a trama vai te envolvendo. O final também é surpreendente, mas ainda ficam algumas pontas soltas do livro anterior, que não foram respondidas. Será que vem um volume 3 por aí ou o lance do autor é deixar tudo em aberto mesmo?
Boa leitura!
LeYa - 288 páginas
"Aparências, aparências! Como é fácil julgar que é louco um homem são e que é são um louco!" (página 52)
Apesar de não parecer, esse livro é continuação do anterior. Depois daquele final absurdo, ficamos sem saber o destino de alguns personagens. Longe de explicar o que aconteceu, temos um deles de volta: Florence, agora com o nome de Jane Pomba, já que ela não se lembra de seu nome e nem de onde veio.
Jane está em um hospício numa ilha, com diversas mulheres. O tratamento que o dr Morgan faz com elas é desumano: banhos gelados, restrição alimentar e horas presas em cadeiras de "contenção", tudo para ensiná-las a se comportar.
É assim que o dr John Shepherd chega na ilha, para seu novo emprego como assistente do dr Morgan. John, aliás, roubou essa identidade de outra pessoa em um acidente de trem e, por sorte, se viu livre de seu triste destino para recomeçar a vida nesse lugar distante. Por isso, ele chega de mala e cuia no local, sem despertar suspeitas.
John se assusta com o tratamento dado às mulheres e pede ao dr Morgan para usar um tratamento mais humano com uma das pacientes. Ele aceita e a escolhida é Jane Pomba, uma jovem que mal sabe falar e não recorda nada sua vida, nem seu nome.
O tratamento começa e algumas coisas acontecem ao redor de John, que o deixa sempre alerta: será que desconfiam de alguma coisa acerca dele? E se alguém descobre que ele não é o dr John verdadeiro?
Todos parecem esconder algum segredo e a trama vai te envolvendo. O final também é surpreendente, mas ainda ficam algumas pontas soltas do livro anterior, que não foram respondidas. Será que vem um volume 3 por aí ou o lance do autor é deixar tudo em aberto mesmo?
Boa leitura!
terça-feira, 31 de outubro de 2017
A menina que não sabia ler
John Harding
LeYa - 288 páginas
"Propus-lhe um acordo. Eu lhe daria permissão para o beijo que tanto desejava se ele escrevesse um poema para mim." (página 19)
Assim que soube que ia ficar de molho por algumas semanas, uma amiga trouxe dois livros para eu ler: este e o volume dois. Ela, porém, fez o alerta - Não sei se você vai gostar. Eu nunca tinha lido um livro assim. Leia e depois a gente conversa.
Fiquei curiosa, claro, e comecei a ler a história de Florence e Giles, dois meio-irmãos órfãos, que são criados num casarão na Nova Inglaterra, em 1891, pelos empregados do tio misterioso e ausente.
Florence tem 12 anos e Giles, oito. Por ordens do tio, ela não devia aprender a ler, apenas a costurar e a fazer tarefas femininas. Já o irmão, depois de uma experiência em um colégio interno, passa a ser educado em casa por uma preceptora, a srta Whitaker. Flo, porém, descobre um aposento "proibido" na casa: uma biblioteca e, usando de várias estratégias, consegue frequentá-la e aprende a ler por conta própria. Lê de tudo um pouco, mas se apaixona por Shakespeare:
"Chorei pelo rei Lear, fiquei com medo de Otelo e aterrorizada com Macbeth; Hamlet, simplesmente adorei. Os sonetos emocionaram-me." (pág 17)
Uma tragédia, porém, faz com que venha outra preceptora (srta Taylor) e a vida de Florence começa a se complicar, já que ela acredita que a mulher veio com más intenções.
Este não é um tipo de livro que eu curta (tem coisas muito macabras!), apesar do comecinho me enganar, mas li até o fim pela curiosidade. Fantasia ou realidade: o que de fato aconteceu naquela casa nos meses seguintes? O final é surpreendente e não sei até agora o que pensar.
Boa leitura!
LeYa - 288 páginas
"Propus-lhe um acordo. Eu lhe daria permissão para o beijo que tanto desejava se ele escrevesse um poema para mim." (página 19)
Assim que soube que ia ficar de molho por algumas semanas, uma amiga trouxe dois livros para eu ler: este e o volume dois. Ela, porém, fez o alerta - Não sei se você vai gostar. Eu nunca tinha lido um livro assim. Leia e depois a gente conversa.
Fiquei curiosa, claro, e comecei a ler a história de Florence e Giles, dois meio-irmãos órfãos, que são criados num casarão na Nova Inglaterra, em 1891, pelos empregados do tio misterioso e ausente.
Florence tem 12 anos e Giles, oito. Por ordens do tio, ela não devia aprender a ler, apenas a costurar e a fazer tarefas femininas. Já o irmão, depois de uma experiência em um colégio interno, passa a ser educado em casa por uma preceptora, a srta Whitaker. Flo, porém, descobre um aposento "proibido" na casa: uma biblioteca e, usando de várias estratégias, consegue frequentá-la e aprende a ler por conta própria. Lê de tudo um pouco, mas se apaixona por Shakespeare:
"Chorei pelo rei Lear, fiquei com medo de Otelo e aterrorizada com Macbeth; Hamlet, simplesmente adorei. Os sonetos emocionaram-me." (pág 17)
Uma tragédia, porém, faz com que venha outra preceptora (srta Taylor) e a vida de Florence começa a se complicar, já que ela acredita que a mulher veio com más intenções.
Este não é um tipo de livro que eu curta (tem coisas muito macabras!), apesar do comecinho me enganar, mas li até o fim pela curiosidade. Fantasia ou realidade: o que de fato aconteceu naquela casa nos meses seguintes? O final é surpreendente e não sei até agora o que pensar.
Pra quem curte um terror, vai amar.
Boa leitura!
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